O alvo do Sniper Americano

Vamos falar de filme.

Agora que o Oscar passou, podemos falar mais abertamente dos indicados, vencedores ou perdedores, sem medo de ataques apaixonados – que nem depois da final do Campeonato Brasileiro. Então vamos lá! Sobre qual, dentre os 60 filmes “reconhecidos pela Academia”, eu devo escolher? Poderia falar sobre algum premiadíssimo, e dar asas aos louvores infinitos da crítica. Ou eu poderia falar de algum considerado subestimado pela Academia, que tenha sido exemplarmente executado, mas não recebido a atenção devida. Só que não.

Não quero falar de extremos. Já tem defensores ferrenhos para os dois lados. Quero falar sobre um filme muito bom e muito ruim. Ao mesmo tempo. Porque é disso que é feita a vida. Bom, isso e o fato que o filme me incomodou muito… Mas, daí, é disso que é feito o cinema.

Vamos falar de Sniper Americano.

Todo mundo gosta do Clint Eastwood, né? Mesmo você que não gosta do Clint Eastwood, gosta do Clint Eastwood! Desde O Homem sem Nome nos faroestes spaghetti dos anos 60, passando pelo saudoso e violento Dirty Harry, tomando um fôlego totalmente novo em Menina de Ouro, A Conquista da Honra, Cartas de Iwo Jima, A Troca, Gran Torino! A lista é longa. O cara sabe o que faz. Atuar, dirigir, compor (desde Sobre Meninos e Lobos ele tem trabalhado nas próprias trilhas).

Tá. Aí, esse Clint Eastwood que todo mundo ama – inclusive você – pega um cara que tá todo mundo amando – inclusive Hollywood – chamado Bradley Cooper, e eles fazem um filme juntos. Você pode não achar o Bradley Cooper lindo, mas tem que admitir que ele sabe atuar. Não é qualquer um que passa de Se Beber, não Case para Sem Limites, e ainda consegue dar vida e voz a um guaxinim agressivo, em Guardiões da Galáxia.

Imagine os dois conversando, tomando uísque e, com sorte, fumando um baseado:

– Então, Brad… Posso te chamar de Brad? Quero fazer um filme contigo… pra ganhar um Oscar que tá entalado na minha garganta desde 2004.

– Clint, cara, se for pra ganhar um Oscar, você pode me chamar até de Hillary… Mas [pausa pra tragar a bola que o Clint passou pra ele] diz aí… no que você tá pensando?

– Bom, Brad. Eu tava dando uma olhada nas últimas tendências de filmes que ganharam melhor filme e melhor diretor, e teve Guerra ao Terror, em 2010 e… Argo, em 2013, que também era meio um filme de guerra… Então… acho… queagentedeviafazerumFILMEDEGUERRA!

– Mas e meu Oscar de melhor ator?

– Brad, Brad… você é branco e bonitão. Quais são as chances de não levar um Oscar de melhor ator?

[Os dois brindam, riem muito e apertam as mãos]

Mentira, não foi assim. Bradley Cooper e a Warner conseguiram os direitos do livro Sniper Americano e, depois do Spielberg ser chutado da direção por questões de orçamento (já que ele provavelmente colocaria um monte de computação gráfica), o Clint foi chamado para dirigir.

O filme começou a ser rodado em março de 2014 e estreou no começo de 2015.

É um bom filme?

Sim.

É um filme ruim?

Sim.

Por quêêêê?

Vamos falar sobre porque ele é bom, primeiro. É um filme esteticamente muito bem feito. Ele tem bons planos, movimentos de câmera bem pensados, som muito bem utilizado (tanto que o único Oscar foi de melhor edição de som), sem falar nas atuações e nos efeitos. As locações também são bem trabalhadas, com suas respectivas cargas afetivas – os EUA são sempre coloridinhos, organizadinhos e limpinhos, em oposição ao Iraque sujo, marrom e destruído. Em suma, foi um filme pensando em detalhes, para trazer uma verossimilhança (o cinema busca ser uma realidade de verdade, não é?) e uma profundidade que envolva o espectador. É bom lembrar que muitas das produções fast food, principalmente blockbusters de ação, não só não pensam nesses detalhes, a não ser quando a verossimilhança é necessária para uma cena marcante, como a explosão de uma pirâmide em Transformers 2 ou a destruição da Torre Eiffel em G.I. Joe.

SniperAmericano2

Vamos dar alguns exemplos dessas cenas bem pensadas em Sniper Americano:

  1. A linda cena do enterro de um colega de Chris Kyle (Bradley), onde se vê um soldado empunhando um rifle em primeiríssimo plano, e um soldado tocando uma corneta ao fundo, tornando alegoricamente visual a predominância da violência na realidade estadunidense, mesmo naquele momento que deveria ser de homenagem.
  2. A cena em que se vê Kyle, já de volta para sua família, assistindo televisão com os sons altos de tiros e helicópteros. A câmera gira, indo das costas da televisão até as costas do soldado, revelando que o aparelho está desligado, e os sons vem da cabeça dele – com o perdão da palavra – permanentemente destruída pela maldita guerra!
  3. A cena pri-mo-ro-sa em que o grupo de Kyle planeja vingança por um atentando a um colega. Um dos soldados, de óculos escuros, diz: “olho por olho”. Daí se pensa: qual o significado de um homem de óculos escuros dizer “olhos por olho”? Você não vê os olhos dele porque eles estão protegidos ou você não vê os olhos dele porque ele já está cego?

Enfim, o filme é certeiro em evocar mensagens mostrando o lado escuro da guerra, por assim dizer. Não há louros à força inabalável e à coragem imbalançável dos soldados. A sequência inicial gira em torno de Kyle decidir se mata ou não uma criança, e o próprio soldado é mostrado como um sujeito agressivo e sem limites – como todo bom texano da gema – que entra na Marinha com o intuito de lutar contra um inimigo que sequer sabe qual é (“não se sabe quem é o inimigo”, diz a televisão), mas que atacou “o seu país”. Há discussões profundas e urgentes sobre a ética guerreira do Tio Sam.

A Marinha é mostrada como uma instituição incompreensivelmente violenta e sem o glamour à la Michael Bay. Nesse ponto, Sniper Americano faz como muito bem fizeram outras pérolas da película anti belicista como Nascido para Matar e Apocalipse Now. O treinamento para ser a guerra é sujo e pesado, mas dele permanecem os laços, baseados no ódio em comum pelo mesmo inimigo invisível.

Não é um filme lindo até aí?

Sim!

Mas quando Kyle volta de sua última missão, após eliminar seu arqui-inimigo, os ventos do filme mudam totalmente. O que deveria ser uma síndrome de estresse pós traumático, após quatro turnos em uma das guerras mais intensas e sem sentido da história (depois do Vietnã) se torna uma história de superação que culmina em um Chris Kyle de volta à sua terra natal, no coração do Texas, sem nenhum resquício de pânico ou paranoia, ajudando veteranos que não conseguiram sair do poço que a guerra os lançou. É certo que é uma história real, mas acima de tudo é um recorte de uma história real, um recorte definido pela visão de um realizador…

No dia 2 de fevereiro de 2013, Kyle é morto por um dos veteranos que “tentava ajudar”, como diz o letreiro final do filme. Os créditos sobem frente a imagens reais (e bastante bonitas!) de um comboio que percorreu mais de 300 quilômetros para homenagear o falecido fuzileiro lendário.

Como último ponto, a trilha sonora dos créditos é O Funeral, composta por Ennio Morricone para a trilha do faroeste O Retorno de Ringo (1965), que recria o retorno do heroi grego Ulisses em um Velho Oeste pós Guerra Civil. A música, que lembra a militar Marcha da Despedida, é bastante melancólica, e é utilizada no filme de 65 para compor o falso enterro do protagonista, cuja morte aparente permite que continue vigiando sua família e seus inimigos ainda mais atentamente, incógnito.

Fica então a dúvida: apesar de todo o esforço para marcar os malefícios psicossomáticos da guerra, o libelo de Clint Eastwood termina com a mensagem de que Chris Kyle era um Ulisses, cuja morte não foi de todo real, mas deixou um legado que será reproduzido por outros? E qual seria esse legado? O do patriotismo cego? O da conivência com as ações da Guerra ao Terror? O da islamofobia (o filme causou um leve surto do fenômeno, principalmente no twitter)? Na minha sincera opinião democrata, o velho republicano perdeu a mão, e deixou sua senilidade liberal ultrapassar seu poderio artístico. Sniper Americano termina como, mais do que uma obra prima, um panfleto político-militarista da pior espécie. Um anti Nascido em 4 de julho (inclusive invocando Ron Kovic, ao mostrar um cadeirante agitando a bandeira americana no funeral de Kyle).

Deixo em aberto a possibilidade de comentários. Sei que é muita informação para processar e esse texto ficou especialmente mais longo, mas há muito o que se pensar, principalmente quando se lida com interpretações de uma forma de arte. Que existam outros ângulos, e que Clint Eastwood os veja, e não nos brinde apenas com seu lado ufanista… Felizmente, o cinema se renova. Esperemos pelo próximo Clint…

Mais sobre o autor: Victor é estudante de cinema e ex-filósofo profissional, decidiu trocar a Academia pela internet quando percebeu que acadêmicos são crianças mimadas querendo ser donas da verdade. Nasceu em Goiânia e está se dedicando à culinária como uma forma de alegrar o mundo à sua volta.

2 Comentários

  • Responder março 7, 2016

    Lilia Cervantes

    Eu não acho que esse filme teve de receber tantas críticas , para mim, a fotografia de http://www.hbomax.tv/sinopsis.aspx?prog=TTL603292 é muito bom, tem partes agradáveis ​​e bem acompanhado por música e expressões que têm cooper . No geral, eu gostei muito e talvez com menos patriotismo americano , teria funcionado melhor

  • Responder agosto 3, 2015

    Alicia Jaramillo

    O elenco do filme Sniper é incrível. Um dos personagens que eu amava era o único que fez o ator Eric Ladin, um ator que normalmente é visto em thrillers, agora alcançando excelente caráter.

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