Alunos e juízes

Não é de se espantar que o nosso judiciário tenha, nos últimos tempos, tornado-se uma taverna de quereres tão insólitos que justificam a venda nos olhos da deusa da justiça. A alteração do entendimento da presunção de inocência como garantida, segundo o julgamento do Habeas Corpus 126.292 é um belo exemplo. A inexplicável demora para o afastamento de Eduardo Cunha da Presidência da Câmara também tem seu encanto. E a negligência salutar quanto à suspensão dos direitos de um ex-presidente para interrogatório e investigação reflete a beleza ímpar desse poder.

E eu penso tudo isso enquanto olho para uma sala lotada de adolescentes fazendo uma inútil prova de múltipla escolha onde são postos para escolher qual alternativa melhor define quantos mols de H+ existem em 200 ml de suco de limão, ao mesmo tempo em que têm de pensar qual a função de um artigo em uma enorme frase sem contexto.

Se sou um gênio da abstração? Nem de perto. Talvez eu esteja mais para o dono do Foucault, por essa capacidade de ir do micro ao macro e do macro ao micro tão depressa. Mas duvido muito que me darão algum epíteto que realmente valha, pelo menos não enquanto eu estiver morto e não puder mais protestar contra os apelidos que os livros didáticos que esses meninos leem vão me dar.

Antes de mais nada, explico de onde veio essa epifania. Estive aplicando uma prova bimestral para meus alunos. Um desses exames preparatórios cujo conteúdo é tão catastrófico que só as perguntas dariam um ensaio longuíssimo dos mais fatalistas ou, no mínimo, um tumblr sensacional! Durantes as poucas horas de prova, fui interpelado diversas vezes por súplicas de banheiro e água, pedidos que eu não podia – sob circunstância alguma – autorizar de próprio punho, mas dependia da vinda de um “fiscal de corredor” que acompanharia um aluno de cada vez ao toalete ou ao bebedouro.

É importante frisar que eu vejo o bebedouro da porta da sala, a pouco mais de dez metros de mim. Mas prossigamos.

A justificativa dos coordenadores – não só deste colégio, mas da devastadora maioria – é a boa e velha “malandragem dos alunos para colar”. Como moro de aluguel, nunca pude desfrutar do doce sabor de uma crítica a uma justificativa tão babaca estapafúrdia ignorante como essa. No entanto, não podem me impedir de criar minhas próprias reflexões, como por exemplo:

  • Me pergunto qual seria o nível de desespero de um aluno para fingir querer ir ao banheiro só para ver uma cola exata e específica de uma – dentre mais de 100 questões de todas as disciplinas – que ele já sabia que iria cair e, mesmo assim, não sabe resolver. Veja bem, eu era o tipo de aluno que se preocupava muito com notas e, com toda a certeza, não teria o espírito livre o suficiente para planejar um golpe de mestre como esse. O mais provável é que eu entraria no banheiro e, ao tirar o papelzinho do meu bolso e me dar conta do que estava prestes a fazer, me jogaria aos pés do dito fiscal confessando todos os crimes presentes, passados e futuros, clamando pela sumária condenação no Tribunal Internacional de Haia (simplesmente pelo fato de que eu sabia onde era Haia e precisava me exibir para alguém). No mais, se eu fosse o tipo de corcel indomável do ensino médio, que é visto como “aluno-problema”, eu provavelmente estaria cagando para imposições ético-epistemológicas, tanto quanto eu cagaria para notas. Talvez eu escolhesse preencher todo o cartão de respostas com a letra C e estaria tudo bem…
  • Francamente, se um aluno consegue colar enquanto bebe água em um bebedouro de metal a céu aberto em um pátio iluminado às vistas de dezenas de pessoas, o último lugar em que ele merece estar é na escola. Talvez os X-Men ou a Abin tenham um futuro melhor para ele.

Vamos lá. Assinale qual das alternativas abaixo justifica a necessidade de um aluno precisar de autorização e escolta para satisfazer uma necessidade biológica de hidratação ou evacuação:

( ) ele é um bandido

( ) ele não é confiável

( ) ele é inferior

( ) ele é incapaz

( ) todas as alternativas estão corretas.

 

Hannah Arendt chora toda vez que um aluno, em sala ou em prova, interrompe algo para perguntar “professor, posso ir ao banheiro?”. Sinceramente, não me lembro quando errei a inscrição e me inscrevi para carcereiro – físico e mental – ao invés de professor.

Quando foi que deixamos de acreditar na inocência – e, pior ainda, na independência – dos jovens? Com toda a certeza foi antes da decisão do STF de sapatear na presunção de inocência constitucional. Evidentemente, a ideia de que “mandamos nos corpos (e mentes) dos nossos alunos” veio antes. Antes mesmo de termos um tribunal de justiça consolidado com mogno e mármore. Lembram-se do mestre Policarpo, do Conto de Escola, de Machado de Assis? Que podia controlar a turma com o olhar austero e usava e abusava da palmatória? E como se esquecer do glorioso ambiente repressivo d’O Ateneu, de Raul Pompéia?

São vários os exemplos, só na nossa literatura, de um modelo velho e gasto, empoeirado e quebrado de uma educação francesa, racionalista, cartesiana e cretina que pressupõe um endeusamento do professor, por sua formação intelectual quase divina, em detrimento de alunos violados das piores maneiras. E, mais além, do The Wall, do Pink Floyd, a um certo professor da minha Alma Noverca, os exemplos pululam.

Pensem em quantas gerações foram mutiladas, no auge do florescimento de um pensamento crítico, por intransigências hierárquicas de um velho – geralmente branco – que se julga superior por saber uma língua morta ou um princípio não demonstrável da geometria euclidiana (notoriamente a mais limitada de todas)?

E aí, não lembram-nos esses velhos que dominam o latim e sentem-se superiores em suas cadeiras de mogno, alguns outros velhos que também dominam o latim e sentam-se, superiores, em suas cadeiras de mogno? Trocamos a casa da educação pelo templo da justiça e temos uma mesma relação vertical baseada em uma noção espúria de uma superioridade intelectual e hierárquica incontestável.

“Oh, meu deus, juízes não são necessários, é isso? É o caos que você quer, seu comunista?”

Não. A justiça é tão necessária quanto o oxigênio, mas até aí ele nos parece invisível e incompreensível na grande maioria do tempo.

A repetição desse comportamento – guardadas as devidas proporções, conforme nos ensina o Teorema de Tales – em diferentes âmbitos gera um asco recalcado pela autoridade que só é apaziguado quando torna-se autoridade. É o que acontece, por exemplo, com o aluno de humanas que, depois de ser espezinhado e humilhado pelos professores e familiares por sua escolha profissional, torna-se um deus entronado, arrogante e prepotente. Ou, ainda, o que acontece com aquele pobre diabo que, depois de muito ralar em um sistema de ensino que controlava suas entranhas e um curso de direito inescrutável com professores escroques, torna-se um juiz que, do alto de seu salário olímpico, vê-se no direito de decidir, exegeticamente, quem vive e quem fica.

Não que haja uma relação direta entre um pequeno Gilmar Mendes ou um púbere Teori Zavascki sendo grosseiramente repreendido pelo mestre por pedir para ir ao banheiro, e as pedaladas do Supremo. Mas tanto a sociologia quanto a física quântica nos ensinam que há relação entre eventos, mesmo que distantes no espaço e no tempo. E quando humanas e exatas concordam em algo, deve ser verdade!!

O STF tornar-se uma força política tão nefasta quanto a que vem se tornando nos últimos tempos não é um reflexo imediato do nosso sistema educacional. Temos outras reverberações mais claras disso. Mas é claro que há uma noção de privação de inocência que corre nas veias da nossa sociedade. Pois sabemos, desde muito, que a inocência tem um caráter seletivo:

  • O ladrão negro é bandido, enquanto o branco é um jovem perdido na vida;
  • Aquela mulher que matou é uma louca assassina, mas o estuprador feminicida só amava demais a companheira e não soube lidar com o fim do relacionamento.
  • Um certo homossexual não sabe dialogar e resolve os problemas cuspindo no adversário hétero que estava só expressando livremente sua opinião.
  • Por fim, o estudante é um trapaceiro que não merece a menor brecha de confiança, ao passo que o professor, por mais picaretamachistamisóginoracistaintoleranteintransigenteanti-ético e babaca que seja, está apenas cumprindo seu árduo trabalho de educar.

Para aqueles que, porventura, estavam em sala de aula comigo discutindo sobre ideologia, fica a lembrança de várias versões de uma estrutura hierárquica em que um grupo dominante impõe sua opinião a um grupo dominado. E é aplaudido por isso.

E, para aqueles que não conseguiram acompanhar a lição até aqui, fica um resumo (porque eu não sou o tipo de professor que pressupõe entendimento imediato e/ou anterior). O STF está no topo de alguma pirâmide – ou de algumas delas – e, como tal, está reforçando um discurso de opressão e criminalização que começou em 1500 e não parou na Lei Anti-Terrorismo (13.260/2016). Ele começou em sala de aula e não acabou em Rafael Braga…

Em suma, eu dificilmente vou saber o que meus alunos farão no futuro. Só espero que seja algo bom, menos opressor do que esse “bom” demodê que tá saindo nesse verão. Na verdade, não me importa o que eles farão! Da mesma forma que não me importa quando eles querem ir ao banheiro ou beber água. Me interessa apenas que eles saibam bem a hora de ir à luta!
P.S.: E, vendo as atitudes dos secundaristas por aí… tenho certeza absoluta que os professores escrotinhos e os ministros almofadinhas estão perdendo. Tem coisa grande vindo por aí, e ela vai entrar na faculdade, depois se formar pra depois ser professor e ministro. Bjs.

A foto que ilustra esse texto é da página Jornalistas Livres.

 

Sobre o autor: Estudante de cinema e ex-filósofo profissional, decidiu trocar a Academia pela internet quando percebeu que acadêmicos são crianças mimadas querendo ser donas da verdade. (…)

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