A greve das massas

Você vai fazer um simples macarrão com molho de tomate. Em uma panela, você coloca a água para esquentar e, quando ela ferver, um punhado de sal (umas 10 gramas para cada litro, para não grudar). Na outra panela, você coloca um fio de azeite e se prepara para refogar uma cebola cortada em cubos e uns dois alhos picados – depende do quanto você gosta de alho. E lembre-se de colocar o alho depois da cebola, porque ele queima mais fácil.

Bom, aí você vai colocar o macarrão – espaguete, digamos – na água já fervendo, mas ele não vai.

– Estamos em greve. – diz o macarrão.

Ninguém diz nada.

– Estamos em greve pela alta temperatura da chama! Ela nos cozinha em excesso, ficamos sem sabor e grudados.

– Pare de bobagem e entre logo! – diz a água borbulhante.

– Sim, ande logo, que temos mais o que fazer! – completa o rabugento sal.

– Não! – reluta o macarrão.

Da outra panela, a cebola grita que isso é um absurdo e que o macarrão só está querendo fazer a vida de todos mais difícil!

– É capricho! – completa o bulbo cortado em cubos fumegantes no óleo.

O alho não se pronunciou.

– Mas você não entende, cebola, que a chama muito alta prejudica você também? Ela faz o azeite esquentar muito rápido, o que tira o sabor e o cheiro do bom refogado. Além disso, não está fazendo mal só a você, mas também ao alho aí do seu lado!

O alho ia dizer algo, mas a cebola o atropelou:

– Você não tem mais o que fazer, seu baderneiro? Só falta dizer que quer que tenha menos água na sua panela e que não se coloque óleo.

– Na verdade, o óleo é desnecessário. Quem não me deixa grudar é o sal na proporção certa. O óleo inclusive impede que o molho se misture direito comigo.

– Ah, essa é boa! A culpe é sua, óleo, está vendo?

– Entre na água, macarrão, por favor, poupe-nos… – disse a garrafa de óleo, com sua voz de trovão.

– Mas, além disso, o azeite quente demais é mais propício a se transformar em gordura trans, que faz…

– Espera! – interrompeu a cebola. – Não é você que tem muito glúten e faz mal? Quer dizer, eu não vejo mais ninguém feito basicamente só de glúten aqui, não é pessoal?

– É mesmo! Entra na água! Deixa de ser arruaceiro! Vândalo! – gritaram ao mesmo tempo os outros ingredientes, e também os temperos, porque agora a discussão já havia chegado na bancada.

O macarrão tentava se justificar, mas, em uníssono, todas as vozes ofuscavam a dele. De repente, as panelas começaram a falar:

– Nós entendemos o que o macarrão quer. – Uma luz brilhou nos olhos do espaguete. – Ele quer destruir a imagem do fogo, e censurá-lo na sua única atividade digna e honesta! Ele faz o trabalho dele dia após dia, esquentando água para café e para o chá, fazendo ovos fritos, esquentando as sobras do jantar de ontem, e o que é pior, se esforçando para fazer os bolos crescerem  igualmente no forno! E você, macarrão, com esse seu lobby de “o fogo é forte demais!”… Eu não vejo ninguém mais aqui reclamar da temperatura da chama… Alguém mais?

– Não! – gritaram da geladeira uns restos de torta de frango, rosbife e um arroz integral esquecido atrás dos vidros de mostarda.

– Pois é! – continuou a maior panela. – Você só quer chamar a atenção, não é, macarrão? Pare com seu bullying e sua censura e entre na água que todos temos que trabalhar.

O macarrão não soube o que dizer.

– Sim! – esbravejou a louça de porcelana que nunca saía da prateleira mais alta a não ser no Natal e nas bodas. – Nós sempre estivemos aqui e vimos tudo. O macarrão não sabe o que diz. Você não é aquele mesmo macarrão que uma vez reclamou que a farinha não era de semolina e os ovos não eram orgânicos quando você estava sendo sovada naquela bancada?

– Aquele era um nhoque caseiro! Eu sou espaguete! Industrializado!

– Mas não é uma massa também?

– Pois bem!!! Como você quer que levemos vocês a sério se as reivindicações de vocês são tão frívolas e, digo mais, ofensivas! A farinha de trigo ficou tão triste que criou carunchos!

– Ohhhh! – gritaram todos, chocadíssimos. Bem verdade, há tempos não viam a farinha.

– Cale-se e entre na água! Ou então, saia, seja jogado fora e deixe que façamos outra coisa! – gritou a louça.

Do armário de panelas, algumas velharias sem cabo e frigideiras com teflon desgastado sugeriram que se fizesse um macarrão de abobrinha, pois era mais saudável e gourmet. Ainda que não fizesse sentido, para eles a abobrinha era a primeira opção caso o espaguete saísse da receita.

Ainda assim, o espaguete se recusou. Tentaram forçá-lo a entrar, mas ele resistiu e inclusive quebrou alguns fios, que tombaram sem vida nas bocas do fogão, à beira da chama. Agora a massa já pedia que a temperatura da chama fosse reduzida, que a panela fosse maior para distribuir o macarrão mais igualmente, e que, em caso de molhos à parte, um pouco de manteiga fosse dissolvido no macarrão cozido, para evitar que ele grude e facilitar a aderência do molho.

Mas ninguém ouviu o pobre macarrão.

A colher de pau, velha e lascada, no escorredor, contou uma história de como era mais difícil fazer macarrão no fogão a lenha, de como naquela época o macarrão feito a mão cozinhava muito mais rápido em uma água que não podia ter a temperatura regulada, e ainda assim não reclamava! Ele disse que, muitas vezes, o macarrão queimava e, ainda assim, era servido com gosto!

– Naquela época era respeitável – disse a colher de madeira, sendo aplaudida de pé por quase todos, exceto pelo alho, que mantinha-se calado. – Não é como essa bobagem fresca de hoje… E querem saber? Eu conheço uma massa de lasanha que ressecou duas vezes antes de ser realmente feita!! E você achando que não tem motivo para trabalhar!

– Mas o sofrimento dela invalida o meu? Isso quer dizer que eu não posso sofrer e me queixar também? – gritou o macarrão incrédulo. – Seu velho gagá!

– Ohhhhhhhhhh! – começaram todos, comandados pela louça de porcelana.

Impropérios do pior tipo (isto é, do tipo dos comentários da internet) voaram pela cozinha. O macarrão, se isso é possível,  chorou. Mas não baixou sua bandeira.

E então foi dado o golpe final.

macarrc3a3o-cozinhandoA cebola, já exausta de tanto bradar, com a voz de choro, disse:

– É isso, então? Você quer destruir nossa harmonia, não é? Por um capricho seu, uma bobagem que não diz respeito a mais ninguém, apenas a você, você quer prejudicar todos nós, que só queremos trabalhar! Que não temos outra opção a não ser trabalhar! Você acha que eu e o alho podemos voltar a ser uma cabeça e um dente inteiros e voltar para as nossas cascas? Ou que o molho de tomate ali pode voltar para a lata e selá-la magicamente? Você acha que o gás que o fogo já consumiu enquanto você se lamuriava vai voltar a existir do nada? Você acha que está quente na água? Experimente então ir para o microondas, onde não tem fogo, mas tudo arde à sua volta, até você explodir!

(O arroz integral da geladeira, que já havia sido requentado algumas vezes no microondas, gemeu e disse aos colegas que era verdade. Todos concordaram.)

– Você não quer viver na nossa harmonia, vá para o lixo que o carregue, sua massa inútil! – bradou a cebola, ouvida com atenção por toda a cozinha. – Quem está te pagando para você fazer essa manobra? É a alfarroba? Ou será o grão de bico? Com certeza é algum desses malucos que querem acabar com os bons alicerces das nossas receitas cotidianas! Se você é desses, você não merece viver entre nós! Ame-nos ou deixe-nos.

Fez-se um silêncio sepulcral na cozinha. O macarrão engoliu seco e pulou na água, já fumegante. Ninguém ouviu, mas o fogo chiou, num riso sarcástico com uma chama que lambeu a lateral da panela e marcou-a permanentemente. O macarrão foi feito, e tudo isso ocorreu num milissegundo que você só teria percebido se fosse um Senhor do Tempo ou Borges. Mas, para você, tudo continuou igual, e tudo pareceu a mesma massa indistinta no seu prato que, no fim das contas, só servia para te alimentar.

 

P.S. – Ninguém reparou também, mas o alho, nesse meio tempo, queimou, por ser tão delicado na fritura. E, por ser menor, nunca disse nada. Mas ele queimou, e marcou com amargor o sabor final do molho.

 

Mais sobre o autor: Victor é estudante de cinema e ex-filósofo profissional, decidiu trocar a Academia pela internet quando percebeu que acadêmicos são crianças mimadas querendo ser donas da verdade. Nasceu em Goiânia e está se dedicando à culinária como uma forma de alegrar o mundo à sua volta.

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