Voz feminista no novo álbum do Carne Doce

Carne Doce desceu como um golpe bem dado na boca do estômago. No bom sentido, pois o golpe dado foi no estômago dos machistas. O segundo disco da banda goiana estreia com suingues psicodélicos à la Boogarins cortados pelos vocais rasantes de Salma, que rasga o verbo em suas letras, em sua maioria de conteúdo feminista.

Capa do álbum "Princesa"

Capa do álbum “Princesa”

Abre o álbum perguntando “Cê tá pensando o quê? Cê tá pensando que eu sô quem?”, versos que destilam o desdém à pose de macho alpha, um retrato dos relacionamentos conflituosos da atualidade, que cada vez mais questionam o padrão de dominação e submissão da sexualidade. Selma desbanca: “Como eu previ, só é macho pras donzela”.

O álbum carrega o peso dos relacionamentos pós modernos nas canções “Princesa”, “Amigo”, “Eu te odeio” e “Açaí”, um retrato da conquista barata, superficial, descartável e das relações virtuais e solitárias. Esfrega em nossa cara, a necessidade vazia de estar acompanhado e o querer se isolar do convívio social. Esse paradoxo que faz as pessoas estarem juntas mesmo ausentes, ou o contrário. Reflete bem as indagações internas que envolve o ato de lidar com os laços de amor e amizade na modernidade líquida.

A pauta contemporânea existencial que também permeia o suicídio, a fuga, o sonho de infância quando fala sobre a auto-sabotagem em “Sombra”. Quem não se cansa da realidade e da sociedade doentia? Quem não se cansa da culpa e do pecado? Quem não se cansa da busca incessante pelo sucesso e pelo prazer? Já estamos todos cansados de “ver gente voando”.  O voar que é fuga, que é queda, que é morte, que é saída, que é liberdade.

Novamente a manifestação da voz feminista preenche a canção “O pai”, quando toca a temática de relação entre pai e filha. Pai esse que pode ser tomado como o progenitor bem como o Deus Criador. “Mas ‘inda assim tinha sempre razão, inclusive sobre mim, principalmente sobre mim” como se aquele pai tivesse poder sobre todas as decisões e destinos de sua filha. E ela, com sua submissão e culpa, murmura e brada “até hoje o seu não, até hoje o teu sermão, até hoje eu espero a sua benção”.

Após abordar a temática da culpa, Carne Doce explode com a canção Artemísia, um hino pela luta a favor do Direito ao Aborto Legal, tema de grande importância à pauta feminista.  A música que leva o nome de uma erva abortiva entrega: “Não vai nascer, porque eu não quero, porque eu não quero e basta eu não querer!”

O manifesto que até então vinha sendo suave e discreto, de repente despeja o âmago feminista com a canção “Falo”, com referências à obra da Karina Buhr, não apenas em sua citação de Selvática, mas inclusive pelo ritmo do vocal que vomita os versos:

“Pois aproveitando essa hemorragia
Vou me dar o luxo de ser verborrágica
Com você não basta que eu seja prática
Você não sustenta um raciocínio lógico
E eu já não suporto te explicar o óbvio
Você finge me tratar como igual
Mas seu arroto é pura condescendência
Não, eu não quero me acalmar
Eu não preciso de um tempo
Eu na verdade sei que não adianta esse lamento
Você não vai se apurar
Não importa quanto tempo passe
Meu sexo sempre é um impasse
É a razão pra me acusar
Que é por isso que eu sô histérica
Eu não sô histérica, eu só tô histérica
Que é por isso que eu sou neurótica
Eu não sou neurótica, eu só tô neurótica
Que é modinha eu ser selvática
Meu bem, eu sempre fui selvática
E é bom que você se cuide
Não vai ter quem lhe acude quando eu quiser te capar”

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E após essa verborragia musical fica impossível não associar a obra de Carne Doce ao feminismo, que se torna intrínseco às letras e ao vocal de Selma, acompanhado de arranjos inspiradores e ricos dos músicos e compositores, que hoje ficam à sombra de Salma, por sua excelência em ser estrela do álbum.

Ouça na íntegra “Princesa”: carnedoce.com/princesa

Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…)

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