Primeiro cântico

Foram quatro voltas e meia, ao redor da arena, e quase o mesmo tanto de voltas do ponteiro do relógio. Eu queria correr entre as árvores, espantar todos os seres vivos que ainda perambulavam ali, mandar embora aqueles passageiros como ovelhas que se dispersam nos campos, até que as ruas de ladrilho ficassem vazias. Conte-me, você, a quem devo amar um dia, conte-me para onde leva todas as suas bagagens e onde faz as suas histórias descansarem? Se eu nunca o souber, serei como uma mulher vendada, perambulando sem rumo na escuridão do seu ser.

Ele me respondeu: a gente sabe, sim, não haveria como não saber tal resposta. A gente sabia. Se não o sabes ainda, siga a trilha dos meus versos e repouse a minha bagagem em segurança. Ali nos degraus gastos, onde ninguém se sentava, à sombra de um muro pintado com cores e palavras desconexas. Ali estava escrito que só um prevalece. A gente sabia desde o começo do mundo o que estava prestes a acontecer.

Ah, se ele.

Quando a gente se encontrou, olhar e sorriso, todas as perguntas se calaram. Inventamos mil contos e mais cem livros pra citar, arrisco até a dizer que muito mais poderia ser escrito do que apenas um grafite no muro. Eu achava que ele era um rei, viera me falar de outra guerra e todas as estratégias de suas tropas. Eu só fiquei temerosa que ele precisasse ir embora pra fazer uma guerra. Eu queria que ele me convidasse também, que eu pudesse até duelar lado a lado, mas acontece que eu ainda sou uma mulher. Ou até uma menina mal informada das políticas do mundo.

Leve-me com você! Vamos depressa! Ó, rei, leve-me embora desses muros altos, sequestre-me para um campo de batalha onde somente um irá prevalecer. Seremos nós, iremos celebrar nossa vitória, em altos brados, com fogueira e vinhos doces. Eu sei que você é desses reis que não suporta vencer sozinho. Vencer uma batalha é como guardar um perfume num frasco especial, como se fosse a última fragrância sagrada que existisse na face da terra. E assim, você vence.

Ele dizia que namorava uma flor, mas as flores num ramalhete eram apenas mais um dos longos vestidos em que eu me escondia. Atrás das pétalas e atrás dos espinhos. Fora do alcance de qualquer outro senão do rei, que era único na terra. Uma flor de hena das vinhas de En-Gedi. E eu dizia que sorriso era aquele que se esquivava nos cantos mais insondáveis, um sorriso que invadia até a minha mais profunda escuridão e nas sombras ficava, aguardando o minuto em que a flor se abriria. E era assim que ele me vencia.

Eu pensava cá com os meus botões de flor, como seria quando desabrochasse, se o seu sorriso me cobriria com o mais terno acalento trazido dos campos de batalha, aquela calmaria que vem após a tempestade. A sua fragrância é suave e o seu nome é como um perfume derramado que nunca se desperdiça pois enche o solo e alimenta as raízes de uma flor. Era assim que ele vencia: Única entre as flores, quando abre-se na escadaria gasta, e desde que brotara do chão, eu já o sabia. É você. Alçará vôo com suas pétalas, desafiando a todas as demais flores que não se permitem desabrochar senão no chão seco e infértil. Você tem olhos que voam, mais alto que qualquer outra ave.

Ó rei, mais belo não tem que o seu sorriso. Como é encantador! E as cores que avistamos aqui de cima são mais fortes do que vistas de perto. Aqui as cores vivem mais, porque precisam atravessar até o céu e sobreviver aos nossos olhos. Fortes são as raízes, mas jamais esqueçamos a leveza que tem os sonhos quando voam. Voam como carruagens aladas pra longe de todos os olhos, até mesmo dos olhos das árvores que dançavam enquanto cantamos nossa melodia feita de silêncio, escutamos o som que vem lá do fundo, aquilo que nem sequer se pronuncia.

Fonte: The Vancouver Sun.

Fonte: The Vancouver Sun.

> Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) >

 

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