Precisamos falar sobre…

Minha escolha foi, imediatamente, a de não colocar o assunto principal no título, porque você simplesmente não abriria para ler. Já que abriu, por favor, leia.

Precisamos falar sobre a depressão. Não dê de ombros, não deixe pra lá, não vire as costas. A depressão está aí: com seu colega de trabalho, sua vizinha, seus alunos, seu contador, sua faxineira, seus filhos, seus pais. E exatamente por acharmos que é algo alheio à nossa realidade que muitas vezes a depressão passa despercebida bem debaixo do nosso nariz.

Não é uma frescura, não é alma mole, não é falta de vontade, não é fraqueza. É uma doença. Uma doença que está atingindo cada vez mais pessoas.

Não sejamos poetas de um mundo caduco, vivemos neste mundo caduco e não adianta querer amenizar o que é bruto e grotesco nele. A violência, a falta de respeito, a ira, a desigualdade, a guerra, a miséria, a fome estão em toda esquina. Existem, mesmo que você escolha ignorar, mesmo que você escolha acreditar só em coisas boas. Algumas cascas dão conta de proteger seu emocional dessas coisas, outras cascas quebram. Ninguém está a salvo de ser sensível e a sensibilidade humana é a principal fonte de dor, seja ela física ou emocional.

Depressão, a gente ouve tanto falar mas sempre são os outros. Será que são os outros ou é você que nega que ela está dentro da sua casa, do seu ambiente de trabalho e nos momentos ruins? Não quero assustá-lo, de forma alguma, mas fugir dessa palavra não faz com que essa doença deixe de existir.

Eu convivi com a depressão boa parte da minha vida. Embora eu seja nova, tenho apenas 26 anos, eu vivi a depressão e suas consequências em minha família, de diversas formas. O problema da depressão vai além de apenas estar deprimido, mas acabar colocando isso na vida das pessoas que mais convivem com você. Eu mesma, apesar de ter um conhecimento razoável sobre o assunto, não escapei da depressão.

Ter que admitir a depressão a si mesmo é o passo mais difícil de dar, porque é o primeiro. No meu caso, eu consegui identificar rapidamente por saber muito sobre isso. Mas vejo tantas pessoas que deixam a coisa de lado até ficar insuportável. Não conseguem reconhecer a doença dentro de si, na verdade porque ela é bem rasteira.

A depressão tira a sua energia vital. Tem dias que você não sabe como consegue sair de casa e ir trabalhar, você está sempre angustiado e infeliz, apesar de não parecer ter algo tão errado na sua vida. Você tenta se convencer de que as coisas vão bem, que tem motivos para ser grato por mais um dia, você tenta compensar sua insatisfação com álcool, com cigarro, com sexo, com comida, com horas de academia. Porém quando se permite não fazer nada, você fica desesperado, um vazio toma conta de você e você precisa imediatamente arranjar algo pra ocupar sua cabeça.

Esses sintomas nem sempre significam que você está doente, mas muitas vezes significam que você pode ficar doente.

Por um tempo, eu não entendia a minha falta de vontade de começar o dia, a indisposição diária para ir trabalhar, o excesso de insônia. Eu nem sequer sabia o quanto eu era ansiosa, mas não tinha paciência para esperar pessoas que andam devagar ou comem devagar, eu estava sempre com pressa, uma necessidade absurda de ocupar todos os segundos do meu dia, sem lacunas. Eu não sabia degustar o tempo em mim mesma. E fui deixando assim, porque pra mim era normal.

Até que, além da ansiedade e da insônia, começaram as crises de pânico e choro sem motivo. Cada vez mais constantes. Aí o sinal vermelho acendeu e eu procurei uma terapia. E acabei me convencendo de que já tinha passado da hora de resolver com terapia. Tive que procurar um médico e então minha vida mudou completamente.

Minha rotina passou a ser uma readaptação diária. Hoje o dia pode ser tranquilo, mas nada garante que será fácil amanhã. Cada dia quando acordo eu preciso lidar como se fosse começar um livro novo e tentar escolher se vai ser drama, terror, aventura ou poesia. Eu sempre fui uma pessoa que era pura poesia. Sempre. Até que minha criatividade sumiu e não consegui mais elaborar versos como antes, até que não tinha novas ideias para projetos fotográficos, até que não sabia mais escolher um filme ou uma música. Fiquei desfigurada e hoje minha luta é tentar remontar o meu quebracabeça e voltar a ser algo reconhecível.

Tratar a depressão é estar entre vales, ora sobre a montanha ora no fundo do poço. Começar com um medicamento é sempre uma incógnita do que você vai ser nesse período de adaptação. Você passa por crises de ansiedade aguda e fuma um maço inteiro de cigarro, depois passa por uma fase de tranquilidade e corta nicotina, álcool e tudo mais da sua rotina. Você perde o apetite e o paladar, nada que coloque na boca parece ser gostoso como antes, até mesmo chocolate parece ser serragem. Em apenas três meses, eliminei sete quilos sem esforço algum.

Parece bom, mas não é.

Você tem compulsão absurda em um momento, depois fica em completa letargia no momento seguinte. Você quer sexo hoje, amanhã quer ser assexuado. Você quer comprar roupas hoje, amanhã quer doar metade do seu armário. Você quer fazer uma viagem esse fim de semana, mas na hora de embarcar não quer sair de casa. Você vive uma contradição que nem você entende.

Você começa a ter vergonha de conviver com as pessoas, porque seu rosto parece muito abatido ou porque não consegue se concentrar para digitar a senha do seu cartão bancário ou porque pode ser que você chore a qualquer minuto ou porque suas mãos tremem até para fazer sua assinatura, que sai toda errada. E pior do que isso é lidar com os olhares de deboche, de desconfiança e de pesar. Alguns vão rir da sua situação, alguns vão desacreditar de tudo que você falar, outros ficarão com pena.

E neste momento a única coisa que você queria era se esconder num abraço e não precisar viver nada disso. Mas o único abraço compreensivo de verdade que vai encontrar é o seu próprio abraço. Nada que digam ou façam pra tentar colocá-lo para cima vai resolver seus problemas. Você nem sabe exatamente quais são os seus problemas.

De fato, ninguém irá compreender sua dor. Mesmo aquela pessoa que apoia, ajuda e está do seu lado, tentando te convencer de que você pode contar com ela… mesmo essa pessoa não compreende muito bem a sua dor. Mesmo outra pessoa que também trata de depressão não compreende muito bem sua dor. Porque a dor é sua e é intransferível.

O segundo passo mais difícil é assumir a sua dor como sua. E mesmo quando você a aceita, o peso parece esmagá-lo e você sente que não dará conta. Alguns de fato não dão conta, outros dão. Quem sou eu pra julgar a força e a fraqueza de cada um? Eu só sei da minha dor, você sabe da sua. Mas a verdade é que enquanto eu, você e todo mundo ficar negando o sofrimento, a dor, a depressão… mais difícil fica de lidar com ela. Mais difícil fica identificá-la, mais difícil fica tratá-la.

Sentir é a missão mais complicada que nos foi dada. Não somos seres frios por natureza. Falar sobre a dor é importante, tanto quanto falar sobre sua felicidade, sua vitória, seu sucesso. Compartilhar isso é admitir que, embora cada um carregue a sua dor, ninguém está sozinho na luta de lidar com ela.

Fale sobre depressão, escute sobre depressão, leia sobre depressão. Compreenda que ninguém está livre de sofrer. Não deixe que isso seja um tabu. Quanto mais informação compartilharmos, mais fácil fica de identificarmos nossos problemas, sofrimentos, dificuldades e doenças.

 

Dica de filme sobre o assunto: Cake (direção: Daniel Barnz, 2014)

 

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