Por que as mulheres não querem ser princesas

Sempre gostei da temática de bruxaria. Quando eu era criança, meu sonho era ser uma bruxa, não uma princesa. As bruxas sempre pareciam melhores porque não eram frágeis, apesar de todas terem algum ponto fraco. Elas pareciam muito mais parecidas com as mulheres de verdade do que as princesas, que eram sempre magras, com vestidos impecáveis, cabelos brilhantes e cheias de graça, amém. Ah, e toda princesa é uma jovem virgem e da realeza. No geral nunca me senti contemplada na figura de uma princesa. Nunca gostei muito de rosa, nem de atividades domésticas, nem me sentia popular, linda, pura… e ao longo dos anos tive muita dificuldade em ser boazinha, comportada, delicada, frígida, submissa e “que sabe o seu lugar”. Já as bruxas, vejam só, elas não precisam de nada disso! Podem gostar e usar as cores que quiserem (até preto), podem ser gordas, podem ter verrugas, podem ter nariz torto, serem corcundas, muito altas ou muito baixas… e, acima de tudo, as bruxas podem ter muitos poderes.hocus-pocus-1993-01-g

As bruxas, todas elas, têm dons. Para fazer poções, feitiços, encantamentos. Para voar, para se transformar em um animal, para transformar alguém num objeto inanimado. Bruxas podem ser más, podem sentir raiva, desejo, rancor, egoísmo, inveja, podem se vingar, planejar um ato terrorista ou a morte de alguém. Bruxas podem ser fortes apesar de terem defeitos, vícios e pecados. Bruxas são inteligentes e seus conhecimentos estão acima da média. Elas entendem de curas e antídotos, como usar todo tipo de erva e planta, como utilizar todas as partes de um animal para sua subsistência, sabem se comunicar com os animais apenas com os olhos, sabem falar línguas diferentes, dominam as tempestades, os ventos e os raios solares… Bruxas são independentes. Sabem revelar o futuro em borras de chá, cartas de tarô e visões, sabem receber mensagens telepáticas, astrais, espirituais. As bruxas veneram a morte como algo sagrado. Todas elas também sabem duelar… e no entanto em (quase) todas as histórias, as bruxas perdem.

Mas antes de falar por que elas perdem, quero relembrar as minhas paixões da infância e da adolescência. Filmes como Abracadabra, Jovens Bruxas, Da Magia à Sedução; séries como A Feiticeira e Sabrina a Feiticeira; livros como as Brumas de Avalon, Filha de Feiticeira, entre muitos outros exemplos… Podemos constatar histórias de mulheres que não se encaixam na sociedade, por terem “poderes especiais”, por não serem obedientes a hierarquias, status social, obrigações de gênero. Em sua maioria são mulheres demonizadas por serem sedutoras, dominantes, sábias, eloquentes, rebeldes, independentes. Ou seja, mulheres que não se adaptaram ao modelo idealizado de uma princesa e, portanto, são vilãs.3041_2

Não à toa, a Santa Inquisição e a Caça às Bruxas, bem como religiões em sua maioria, tentaram extirpar esse comportamento nas mulheres, censurando, pelo medo da tortura, do pecado e da morte, qualquer mulher que não seguisse o padrão patriarcal em voga e; assim continuou por muito – MUITO – tempo. Embora nos dias atuais não exista oficialmente uma caça às bruxas, podemos identificar outros tipos de censura às mulheres que não se encaixam no padrão imposto por homens, desde épocas bem antigas.

Atualmente, as bruxas são mulheres que possuem comportamentos considerados masculinos, aquelas envolvidas seriamente com a ciência, a política, o esporte, a arte, enfim, qualquer âmbito que a destaque dentro de uma sociedade cujas mulheres são feitas para serem princesas e estarem abaixo de reis e príncipes. Também são bruxas aquelas que demonstram virilidade, seja em questão de gênero por se assumirem como homens, seja em questões estética, de buscar força, agilidade e potência tal qual um homem, pois afinal mulheres têm que permanecer mulheres e não tentar “roubar o lugar” de um homem. Também são bruxas as mulheres sensuais, que se orgulham do poder do seu corpo e o utilizam como meio de sedução (e consequentemente são as culpadas por abusos, violências, estupro dos quais são vítimas), como prostitutas, dançarinas de funk e axé, panicats, piriguetes, vadias e todos os demais nomes utilizados para rebaixar o corpo de uma mulher que não seja o símbolo da pureza sobre um pedestal de frigidez. Também são bruxas as mulheres negras, pelo simples fato de não poderem pertencer à realeza e muito menos se tornarem brancas, negras não são princesas. Também são bruxas as gordas, as feias, as desleixadas, porque uma mulher que não se importa com sua aparência não pode ser uma princesa. Também são bruxas as mulheres desobedientes, que se recusam a se adaptar ao caminho natural da vida que é nascer, crescer, casar, ter filhos e morrer. E são bruxas as mulheres rebeldes que não aceitam as regras de como ser uma princesa, e essas são as loucas, as descontroladas, as exageradas, as feministas.the-craft-witches

Depois de tantas lições ao longo da vida sobre o lugar de uma princesa e o lugar de uma bruxa, eu certamente me identifico mais com o time das bruxas. Uma princesa sabe qual é o seu lugar, o emprego ideal para uma mulher, a casa ideal e o marido ideal. Uma bruxa não pertence a um lugar, pertence ao mundo.

Bruxas são aquelas mulheres sem rumo que não terminam suas atividades extra curriculares mas experimentam muitas, aquelas que trocam de curso na graduação ou desistem de um diploma, aquelas que pedem demissão, que largam o emprego dos sonhos por um trabalho simples que as satisfaça. Bruxas são as mulheres que possuem um salário, um status ou um poder maior do que seu marido ou pai. Bruxas são aquelas mulheres que escolhem não se casar ou que se casam quantas vezes quiserem. Bruxas são as mulheres que abortam, que se recusam a ter filhos e também as mães solteiras.

É por essas e outras que prefiro ser bruxa, prefiro pegar minha vassoura e ser livre.

 

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