Ponto de fuga arterial

Quando saímos da nossa escuridão, no nosso estado bruto, sem lapidar, a impressão que dá é que não estamos no lugar certo. Ficamos nos estranhando feito um bebê que se olha no espelho sem reconhecer-se, ainda desconhecido da sua existência. A nossa natureza é uma pedra arrancada do coração da terra, onde a lava ainda ferve e nada sobrevive.

“A nossa natureza é uma pedra arrancada do coração da terra (…)”

Quando saímos, por fim, à luz, nascemos – um pouco pequenos e ínfimos demais pro tamanho dos barulhos do mundo afora – chega a ser ensurdecedor ouvir a música da nossa existência. Tão atordoante que quase desmaiamos em seguida quando nos percebemos gente dentro de nós. Vamos desbravar um pouco essa condição ultrajante a que fomos submetidos por um tempo, até voltarmos ao nosso lodo interior, onde não se escuta mais nada além de deus. Nosso umbigo se impulsiona pra lá, de volta pra barriga da nossa terra, deitamos com o rosto na areia e paramos de respirar apenas pra sentir uma amostra do que é ser o que seremos depois. Ainda não somos tão pó assim, ainda estamos inclinados ao nosso próprio vendaval de sintomas animais. Enquanto faz dia e noite, nós resistimos contra a inundação que invade os pontos cardeais do corpo, sufocados com a sede e a fome que assola dentro das veias e artérias. Dançamos com os batimentos cardíacos e mais quantos rodopios cabem nas próximas vinte quatro horas de vontade de viver dentro dos nossos corpos, nossas cápsulas viajantes, nossos casarões em ruínas. Quando abrimos janela e porta, entra o ar que não nos pertence e devolvemos com nossas bocas a dor instante de quem se beija no escuro da humanidade. Nós estamos encostados na nossa alma, dormimos ali um pouco porque era a última coisa que se podia fazer antes de saber como é se reconhecer um espírito dentro de outro corpo. Uma vez ao menos na vida todos nós deveríamos ter esse direito. Mesmo que fugaz.

> Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) >

 

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