Nascemos unicórnios

Essa sou eu, com 26 anos. Muitas pessoas me olham como sinônimo de sucesso, porque olha só como ela escreve bem, fotografa coisas incríveis e tem um estilo destacado no meio da multidão. As pessoas que acham isso são as mesmas pessoas da geração da qual faço parte. Todas elas são vistas como sinônimo de sucesso. Eu assisto às minhas colegas sendo incrivelmente bem sucedidas, fazendo doutorado, publicando artigos em bons sites ou ensaios de moda em boas revistas, produzindo cinema no exterior. A mim todos parecem estar muito bem, todos me parecem estar se destacando em suas áreas.

ad44b9f5c4236e35baf981a10038bc5cA verdade é que eu não sou um sucesso. E a cada vez que encontro pessoalmente essas mesmas pessoas elas me dizem que não são um sucesso. Cada uma de nós está em um momento fracassado, lidando com a falta de dinheiro, a insatisfação profissional, problemas emocionais se tornando doenças e uma pá de coisas absurdas. No entanto, ainda assim, parecemos ser um sucesso.

Somos pessoas privilegiadas, filhas de uma geração que penou muito pra nos oferecer tudo isso, nossas universidades ótimas, cursos de línguas, de teatro, de música. Tivemos acesso a excelentes livros, filmes, exposições de artes, viagens. Somos graduados, pós graduados e fizemos por merecer. Gastamos tempo, dedicação e ralamos muito pra sermos hoje o que deveria ser o sucesso da nossa geração.

Não sei vocês, mas eu me sinto injustiçada. Eu penso que eu merecia muito mais do que isso, penso que me esforcei tanto que deveria estar mais longe, melhor do que estou. Não por ambição, mas olhando para a minha vida, sinceramente, eu deveria ser destaque na minha geração. Olho pro meu emprego, pra minha casa alugada, minha pequena coleção de filmes e não consigo entender porque parei nesse degrau. Eu deveria ter subido a escada toda. Eu me aproximo dos 30 anos pensando: não tenho carro, não tenho teto e se ficar comigo é porque gosta do meu lepo lepo. Ridículo, mas essa música faz todo sentido pra nossa geração que queria ter uma vida adulta responsável e independente pra ser reconhecida pelos pais, como se isso fosse receber um troféu de bom filho no final do ano.

Por que essa necessidade de ser melhor do que realmente somos?

2c627b378d9c8e3128f5246b8a66a3fbParece que depositaram tanta confiança, dinheiro e expectativa em nosso potencial de sermos bem sucedidos que qualquer coisa que conseguimos ainda é tão pouco. Nossos pais foram cavalos que criaram unicórnios. Nós nos vemos como unicórnios poderosos e coloridos mas nos sentimos como cavalos carregando pesadas carroças pra lugar nenhum. Publicamos nossa vida pessoal nas redes sociais, exibimos nosso falso sucesso pra esfregar na cara de todo mundo que chegamos lá, que somos tão bons quanto deveríamos ser, que merecemos troféus, buquês de flores e homenagens.

Nos bastidores não passamos de pessoas comuns, com vidas comuns, carregando o peso de ser um fracasso. Não admitimos ser um fracasso, não admitimos estar na média e ter uma vida medíocre. Precisamos estar no topo, ter aquele nome reconhecido na área de atuação que escolhemos. Subir um degrau é um fracasso quando deveríamos subir dez. Essa sensação de fracasso vai corroendo nossa mente, sugando nossa energia vital e, sem perceber, você repete pra si mesmo um mantra todos os dias de como você é um fracassado.

Ficamos doentes. Somos uma geração de menos de 30 anos com distúrbios alimentares, ansiedade, crise de pânico, depressão, fobia social, dependência química, alcoolismo, compulsividade, vício em trabalho, academia, vídeos pornôs, games, sexo, açúcar e qualquer outra coisa que inventarem. Exibimos tudo isso na vitrine virtual pra provar como somos fortes e satisfeitos e bem sucedidos.

A verdade é que nos sentimos fracassados porque todos parecemos bem sucedidos. Parece injusto que eu, um unicórnio colorido, não seja mais especial que todo mundo. E esse é o mesmo pensamento de todos nós, colegas. A verdade é que talvez você tenha ido bem mais longe acadêmica ou profissionalmente do que seus pais e avós, mas como a geração, na qual você está inserido e compete com você, é feita de pessoas que também foram mais longe, seu esforço parece pouco, parece em vão.

Quando vamos parar de achar que nossos pequenos sucessos são insuficientes? Quando vamos parar de carregar o fardo de um fracasso que não existe?

 

 

Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) 

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