“Nada é por acaso”: tem certeza?

Desde muito cedo, somos acostumados a ouvir citações como “Nada é por acaso” e “Tudo tem um propósito“. Por muito tempo, eu fui adepta desta convenção; pra mim era óbvio que situações aleatórias ou bizarras não aconteciam por acaso, mas que aconteciam por um motivo muito específico pra que eu extraísse daquilo um crescimento pessoal, uma evolução. Na verdade, é possível que a maioria das pessoas concordem plenamente com isso, e não me incomodo que pensem assim.

Nos últimos tempos, no entanto, comecei a me questionar sobre certos valores e propósitos que damos a acontecimentos cotidianos inusitados, que os fazem ser tão especiais, importantes ou marcantes… sem a menor necessidade. E, além disso, muitas vezes valorizamos ainda mais os acontecimentos inusitados ruins do que os bons, como uma forma de justificar nossa insatisfação própria de sermos seres insignificantes no Universo.

Por exemplo:

Ao terminar um namoro, uma garota ainda desolada decide comprar um bolo de aniversário para o seu ex, por consideração e amizade. Ela entra na padaria nesta intenção, mas justamente naquela padaria, naquele exato momento, ela vê seu ex namorado tomando café com outra menina, com quem estava saindo.

Este acontecimento pode tomar proporções imensas, se acreditarmos que tudo tem um propósito. Quantas pessoas não irão lhe dizer que foi um sinal para mostrar a verdadeira face daquele babaca? Quantas pessoas não irão dizer que foi uma conspiração pra ambos se afastarem de vez? Quantos não irão lhe dizer que não foi por acaso?

Será?

Vamos colocar este fato no gerador de improbabilidade infinita, criado por Douglas Adams em sua série Mochileiro das Galáxias… O Universo é imenso. Não, muito, mas muito maior do que você imagina que seja imenso. O Universo vive, mesmo que não o consideremos um ser vivo, mas ele vive. Considerando o tamanho, a proporção do Universo, quantas outras coisas estão acontecendo exatamente neste momento enquanto você lê este texto, toma seu café, coça sua cabeça, atende o telefone. Se você estender este momento apenas dentro do seu quarteirão, quantas coisas estão acontecendo simultaneamente? E na sua cidade? E no seu país, no mundo, no sistema solar?

“Muito além dos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido. Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais ainda são uma grande ideia” (em O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams)

Vamos sair do mérito de sermos humanos ou não, de se tratar de um ser vivo ou não. Mesmo as existências inanimadas e sem vida, como montanhas ou oceanos, também sofrem a condição de fazer parte de um universo que nunca – nunca – está parado. Quantas coisas estão acontecendo simultaneamente? Partículas mudam, estados físicos se transformam, o planeta gira em sua órbita, a gravidade e a energia solar afetam as proximidades ao redor, a galáxia está viajando, assim por diante.

Mesmo assim negamos nossa pequenez, nossa insignificante existência. Somos insignificantes, somos. Temos controle, até certo ponto, apenas pelas nossas escolhas. Nossas escolhas tem consequências, assim como as escolhas alheias também tem. Isso se chama arbítrio, ninguém está onde está sem ter ido até ali. Mas eu não consigo acreditar que uma pessoa escolheu ver seu ex namorado com outra. Por que escolheria isso? Deve tem algum motivo pra isso, não? Bom, não, na verdade não há! Não existe motivo algum, isso apenas foi um resultado de combinações inúmeras de escolhas de pessoas diferentes e de como o trânsito flui e por não estar chovendo naquele dia e porque não havia outras coisas pra se fazer naquele dia e porque não houve um ataque terrorista no seu país naquele momento. Aconteceu porque sim.

Mas não queremos aceitar nossa insignificância no Universo, queremos que haja uma resposta, uma explicação pra isto ou aquilo! Não queremos estar à mercê de um gerador de improbabilidade.Enquanto não aceitamos a condição de pequenez no Universo, justificamos as coisas ruins como punições, recados de Deus, propósitos que nem devem existir. E, quanto às coisas boas, justificamos como prêmios, merecimentos, resposta de Deus para algo que você fez certo.

Por exemplo:

Quinta feira passada, uma amiga me convidou para lhe acompanhar à livraria, pois queria comprar um livro de colorir para adultos. Como eu adoro livrarias, aceitei. Eu não tinha nada melhor pra fazer e estava com fome, poderia aproveitar a ida ao shopping para jantar. Entramos em uma primeira livraria, cujo estoque do respectivo livro estava desfalcado. Sugeri à minha amiga de conferir a outra livraria do shopping e lá encontramos o livro que ela queria. Quando estávamos para sair, vi um colega que trabalha na livraria e resolvi cumprimentá-lo. Ele me abraçou e disse “Está rolando show da Tiê, vocês vão?“. Eu não fazia a menor ideia de que a Tiê estava em Campinas e nem que havia um show gratuito marcado para aquele local, naquele dia, naquela hora. Então fomos ao show e aproveitamos a oportunidade.

Vocês podem me dizer: ah, mas houve um propósito para isso ter acontecido! Mesmo? Qual propósito? Minha amiga ganhar um isqueiro azul com a marca da Tiê? Tirarmos fotos com ela? Que propósito é esse?

Na verdade, foi por acaso. Sim, por acaso. Eu posso querer justificar que isso foi uma compensação por uma semana ruim, ou que Deus quis me presentear com algo que eu gosto muito por eu ser uma boa pessoa. Essa coisa de ser bom ou ruim, esse maniqueísmo é uma forma tão superficial de tratar as situações e as pessoas envolvidas, você não acha? Eu posso ser uma pessoa boa, mas não quer dizer que não sou má também… aliás o que eu considero bom ou mau não é o mesmo que você considera bom ou mau. Simplesmente eu acreditar que Deus gosta mais de mim porque me fez estar naquela livraria bem na hora do show da Tiê – e que gosta menos daquela pessoa que entrou na padaria e se frustrou por ver o ex com outra – é um tanto absurdo. Já pensou que talvez essas duas pessoas tenham a mesma importância e a mesma insignificância?

13fd85bc3a0773a5e975034089ca6930Nem se trata de acreditar ou não em Deus, afinal se você acredita Ele considera a todos como igualmente seus filhos, não? Portanto ele não teria motivos para desmerecer um perante o outro. E isso se chama arbítrio. Foram escolhas (não só as suas) e condições externas de existência que fizeram um contexto ser como ele é unicamente naquele momento e simultaneamente a outros contextos no Universo todo. Não se trata de “Penso, logo existo” pois uma pedra também existe e ela não pensa. Aliás você é tão importante quanto essa pedra, embora você queira insistir que é algo mais, algo superior. Na imensidão do Universo e de suas constantes e inconstantes causalidades, nada mais somos que acidentes de percurso na evolução, nada mais somos do que um acaso por conta de um gerador de improbabilidade infinita.

Nada no Universo é estável, tudo é transformação. Estamos todos – seres pensantes ou não, existências vivas ou não – em uma velocidade absurda avançando por acaso no Universo, em caminhos imprevisíveis e aleatórios.

Aliás, considero isso tão maravilhoso! Posso me surpreender todos os dias com coisas que nem imagino!

Se nem os meteorologistas acertam suas previsões climáticas para o dia seguinte, quem sou eu pra acertar na loteria do universo? Se algo acontecer é um completo acaso – único – então aproveite!

Como diz Tiê: “Ao hoje, ao agora e ao talvez.”

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