Morrendo na praia

Viramos escultura.

Mas antes viramos oceano, derramamos nossas mágoas, nossas frustrações, nossas impotências, nossos fracassos. Minha sala ficou debaixo d’água, como naquele sonho estranho de um porão inundado. As caixas não ficaram moles, desta vez, porque já havia desfeito a mudança. Não havia caixas onde eu pudesse guardar minha culpa ou meu ressentimento.

Ficamos roucos de tanto ser mar, de tanto jogar nossas vozes sobre a areia de uma praia vazia. Queria que uma mão gigante então surgisse da areia e me tirasse dali, antes que eu afogasse de uma vez por todas. Como naquela viagem. Ficamos roucos de tanto ser mar, de tanto se amar sem saber como. Afogamos nossas tentativas de sermos amáveis ou amantes ou amigos. Afundou tudo numa profundeza sem tamanho.

Ficamos tão profundos que ficou impossível enxergar, sobrava escuridão. Eu tentei tatear à procura de um caminho, mas havia só água e mais água, uma imensa profundeza sem gravidade. Eu não caía nem flutuava, não sentia meus pés tocarem um chão, mas estava no fundo de enorme fosso. A luz da superfície não chegava lá.

Ficamos cansados. Nadamos sem parar, nadamos e nadamos sem saber pra onde. Não chegamos, nem partimos. Pareceu que só ficamos sobrevoando o mesmo fucking lugar. Era horrível essa sensação de gastar todas as energias e não se mover um centímetro pra lado nenhum, como se uma corrente invisível nos segurasse ali, um perante o outro ad infinitum.

Por último, como uma última coragem, nos fitamos na escuridão e houve uma lanterna acesa em nossos olhos, um reflexo nebuloso de tantas dúvidas ou certezas que não queríamos admitir. Piscamos pra não encher mais a sala com água salgada, engolimos mais um pouco da nossa culpa e do nosso ressentimento mútuos. Era como engolir um comprimido grande demais a seco. Nada estava seco, apenas minha garganta.

E engasgados nos despedimos, último abraço ou quase. Nos colamos com cola de farinha que faz os papéis rasgarem na chuva depois de um tempo. Cada pele, cada pano se encaixou. Meu rosto aborrecido no seu ombro, seu rosto derrotado em meu pescoço. Senti que você tentou respirar-me uma última vez. Mas talvez meu gosto tenha se confundido com o sal do mar nessa sala vazia.

Foi quando viramos escultura. Daquelas que se marmorizam eternas, obra de arte icônica digna de museu. Um museu dos quebrados, dos repartidos em estilhaços, um museu de pedaços destruídos de algum amor estranho que não soubemos segurar na escuridão. Que importa? Somos arte, única na história dos humanos. Nunca mais se saberá de outra peça tão bem talhada no vale abissal da nossa alma.tumblr_n2lmq0gFM71s4bdlpo1_1280

Seja o primeiro a comentar