“Enfia o seu feminismo no rabo”

Ser mulher é carregar sobre si o peso de um legado machista. Já não basta sermos tratadas como profissionais inferiores, como sexualmente frágeis e socialmente dominadas, ainda por cima também temos que aguentar o escárnio pela nossa indignação?

Não.

Chega um dia que definitivamente cansamos. Cansamos da violência física e moral, do descaso, da desigualdade no mercado de trabalho, e cansamos, inclusive, das suas piadas cheias de machismo. Deixou de importar se é descarado ou velado, deixou de importar se foi uma piada pra você, pois, como disse alguém esses dias, uma piada machista antes de ser piada é machista.

Na minha história, como mulher, posso dizer que tive alguma sorte de nascer e crescer numa família que sempre valorizou pai e mãe de maneira equilibrada e que profissional e academicamente eu tive as mesmas oportunidades que um homem. Mas, no fundo, no fundo, sempre ficam aquelas velhas questões: “Você vai vestida assim?”, “Você vai sozinha?”, “Se comporta como uma dama”, “Vai ficar pra titia?”, “Menina não fala palavrão”, “Mulher bebendo é feio”… e por aí vai. Com o tempo, começamos a abstrair certos comentários, apenas porque já não faz mais sentido ouvi-los e deixamos passar. Assim como deixamos passar o “Sua gorda”, “Sua louca” e o “Sua vadia” inúmeras vezes.

Até que um dia eu cansei. E recomendo a toda mulher que se canse também de aceitar o que não deve ser aceito.

Não aceite nenhum tipo de violência, seja física, moral ou emocional. Não aceite aquela passada de mão, aquele aperto ou violação, não fique calada. Grite, até ser ouvida, até que outras também se cansem por você. Não vamos deixar mais chegar ao ponto de uma mulher ser estuprada num trem lotado ou dentro de sua própria casa. Que o nosso não seja NÃO! Não aceite julgamento pelo que você veste, faz ou diz – nada disso é desculpa nem muito menos motivo para ser violada. Não temos que aguentar nenhum tipo de violação.

A minha gota d’água foi ser chamada de “vadia” como piada. Não sou vadia, nem nas minhas atitudes nem nas suas brincadeiras. Não sou obrigada a achar graça, não sou obrigada a gostar, nem sou obrigada a ignorar. Estou cega pelo meu feminismo ou será que só agora é que tirei as minhas vendas?

Por último, se um dia alguém mandar você enfiar o seu feminismo no rabo ou em qualquer outro lugar, lembre-se de que essa é a sua hora de ser mulher e dizer não. Porque não merecemos ser estupradas, nem corpo, nem mente, nem existência.

 

Campanha da Frente Feminista da Unicamp

Fotografia: Giovanna Romaro. Produção: Frente Feminista da Unicamp.

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Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) 

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