Digressão

Ela me disse que não foi por acaso. Eu discordo.

 

Na sala de espera, a mesa de vidro, as cortinas persianas, o vaso turquesa sem flores, o silêncio. Estava sempre tão claro, a luz caindo sobre a mesa, um feixe sobre o livro do Sebastião e eu queria nascer de novo, como ele. Seria pesado nascer de novo? Ou mais pesado ir morrendo todos os dias? O livro poderia ter uns três quilos, perguntei-me como o vidro não se quebrava. As fotografias não quebram, são construções em preto e branco na natureza. A falta de cor é um gene recessivo em dias de exibição em vitrine.

Não somos mais vitrines, não somos vistos de verdade.

No entanto, o maior peso naquela sala não era o livro salgado do Sebastião. Era uma revista, fina e aguda. Uma agulha que me espetou desde que cheguei na intenção de esquecer meus planos. Nossos planos de percorrer o Chile, seus andes, picos e vulcões. Queria subir e ficar sem ar, no topo da cidade gelada, estremecer o solo sob meus pés. Esperando entrar em erupção. Não fizemos essa viagem, mas outros casais fizeram porque insistem. Mesmo infelizes. Mesmo os infelizes insistem.

Nas minhas planilhas, os nomes dos hotéis, das casas de banho natural, das praias frias. Nas minhas contas, os preços das passagens, das diárias, de uma refeição mais cara e outra mais barata. Na minha agenda, uma data tradicional, uma festa típica e retorno indesejado. Queríamos ficar em Pucon e não voltar mais, mas até os infelizes voltam.

A revista sobre a mesa de vidro na recepção atormentou minha paz por meses, eram nossos sonhos que queimaram quando o vulcão acordou e entrou em atividade. A lava desceu a montanha, a cidade foi evacuada e nós perdemos esse evento. Único.

PUCON_SA

Toda semana eu me despedia daquela revista, daquele tormento e me afastava do que não realizamos. Você também passava por isso toda semana quando entrava no consultório? Também se perguntava por que raios aquela maldita revista apareceu ali na mesa? Também não se enfezava com o fato de algo tão peculiar persegui-lo até na sessão terapêutica? Você também lamentava o fato de termos abandonado esses sonhos?

Ela me disse que não era por acaso. Eu discordo.

Acho apenas que o universo é maquiavélico e sádico quando se trata de renovar as energias vitais. O universo se reinventa e nós reinventamos nossos desejos, nossas causas, nossos planos. De repente, nenhum vulcão mais participa da ordem do dia, embora insista em aparecer numa revista na mesa da recepção. E nós escolhemos outras trilhas para fazer.

Ela me disse que não era por acaso. Eu discordo.

Onde eu estaria senão longe? Eu deveria estar no sofá da sua sala em silêncio, nesta manhã chuvosa? Estaria inquieta mas em paz deitada em seu peito? Estaria eu completa embora angustiada com a vida? O que eu deveria lhe dizer para ir embora? Deveria pedir desculpas ou perdoar? Deveria me despedir ou pedir que ficasse? Deveria eu falar ou me calar? O que eu quero dizer? O que me falta dizer? Não. Deixe-me apenas aqui, escutando sua respiração e fechando os olhos. Deixe-me quieta e me abrace. Toque meus cabelos como um instrumento novo e desconhecido, uma melodia leve e terna, como você sempre fazia. Deixe-me aí. Mas o que você diria? O que eu diria? Nada. Só silêncio, porque é assim.

Se eu não aguento, não é por acaso, ela me disse. Eu discordo.

Nada disso mais é real. Nenhuma suposição, nenhuma hipótese. Não existimos nesse abraço, não existimos naquele sofá, não existimos na erupção de mágoas nos olhos. Eu só quero fugir e você quer fugir. Mas sem precisar dar mais nenhum passo.

Estou sobre a minha montanha, os pés fincados na pedra longa, como se eu tivesse raízes e meus cabelos fossem galhos balançando ao vento. Eu sou uma árvore seca sobre o monte, dona do horizonte, ardendo as cascas com as rajadas. Eu sobrevivo silenciosa. Assisto as nuvens atravessando o céu e se esvaindo. Sob o sol forte, ainda estremeço com o vento gélido. Continuo firme sobre a rocha, ali estamos há muitas eras, aguentando as forças da natureza. Como eu não haveria de sobreviver a mais este dia?

Abro os olhos. Estou neste consultório, nesta sala, nesta poltrona, o rosto molhado de tanto chorar.

Ela me disse que não foi por acaso. Eu discordo.

 

Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) 

Seja o primeiro a comentar