Diálogo com a caverna

Porque eu me tornava verbo em tua boca, eu me fiz livro aberto. Rasgaram-me as páginas escritas e derramaram-se em folhas em branco. O que restou é ininteligível, de um garrancho frouxo da primeira infância. Pulamos amarelinha sem chegar no céu, voltamos aos velhos traumas silenciosos que se esgueiram atrás das florestas dormentes do nosso ser.

– Por onde andaste, heroína de mim? Acovardaste nos sonhos e viraste máscara de vício dos medos?

 Ali onde a água parece rasa, andarás. E afundarás por vontade própria.

Fui roubada. Em meus bolsos não encontro bilhetes de trem nem carimbos de passaporte, em meu estômago não se digerem confusões ou receios, em minha boca apagaram o batom, o cigarro e o sorriso.

– Mas teus olhos, heroína, continuam negros.

É breu de alma, menina. É uma caverna profunda onde se silenciam os gritos com ecos, onde tu ficarias surda se adentrasses. Te peço que não entres.

– Mas se não te enxergo na sombra, onde mais te encontraria? Como atravesso a ponte do esquecimento e o rio das frustrações sem que me dês a mão?

Foras tu que me abandonastes no escuro primeiro, quando me soltaste a mão ao sol da singeleza. Lembras que tu mesma fechaste os olhos e abriras o coração aos olhos de um estranho. Pois que contes com tal estranho até que afundes na correnteza dos teus sofrimentos. Ali onde a água parece rasa, andarás. E afundarás por vontade própria.

– Não me deixes, heroína.

Não te deixes, menina.

3ecbfa553078ab421aa4296c1697d371

Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) 

Seja o primeiro a comentar