(Des)encontro

Ela escolheu macadâmia e ele possivelmente caramelo. Ficaram vidrados com as luzes e quadros dos anos 50 e o balcão com cheiro de cupcake e pão de queijo morno. Não estava calor, mas devia ser por volta das três da tarde. Ainda não era hora do chá.

Falaram de literatura de cordel e cinema nordestino e aquela política que não mudava e a opressão entre as paredes acadêmicas deste universo catedrático. Ela se sentiu meio burra com o assunto prosseguindo para o lado em que precisava de posicionar politicamente e ele falava daquilo num tom zombeteiro quando na verdade ficava pensando em como ela ficaria bem de cabelos molhados depois de correr na chuva. Não ia chover hoje, o céu continuou limpo ainda e os seus nomes foram chamados, quase declamados feito jogral, foram discriminados como quem ultimata para o juízo final daqueles que pecaram contra as ordens sociais de se manterem afastados para o seu próprio bem emocional. Eram desobedientes.

Ela pagou a conta porque na próxima seria a vez dele. Haverá próxima vez? Ela se perguntou. Mas deu de ombros, como quem espanta um mosquito, porque não tinha problema se não houvesse outra oportunidade. Ela sabia que… 

Ele achou um pouco intransigente ela pagar a conta, porque parecia querer dizer que podia fazer tudo, mas ele meio que gostava desse posicionamento feminista quase rude pra se provar independente e livre da opressão masculina. Era gostoso vê-la assim tão determinada em ser ela mesma e dona do seu próprio nariz, ficava impossível não sorrir. Aliás essa era a reação que ele tinha na sua presença. Ele sabia que…

Não, ela sabia que iam se ver outras vezes, mas quando vinha esse medo de não ter futuro ela se argumentava que aquele encontro lhe renderia um bom motivo pra compôr um samba. Malfeito e clichê, mas desses que contam o lugar comum dos amantes que se desencontram. Era essa a sua tragédia e por isso ela bebeu um longo gole de café, que pareceu mais amargo do que era. Ela esperava que…

Não, ele sabia que aquela mulher ia ser a causa da sua insônia e da dor de cabeça e dos seus anseios, que ele precisaria correr mais outras ruas na madrugada pra não lembrar da sua pele tatuada ou daqueles olhos que pareciam túneis escuros onde ele entrava e se perdia. Era tão arriscado ele ter vindo ali outra vez, que chegava a ter vontade de apenas sair pela porta da cafeteria sem mais explicações e deixá-la atordoada por ter sido largada assim sem motivo. Seria merecido por ela ter lhe roubado a lógica assim com tanto pouco caso.

Em vez disso, ele subiu a escada atrás dela e se sentaram numa mesa baixa com um sofá vermelho. Não tinha mais ninguém no segundo andar. A música não combinava muito com a conversa e ela começou com aquela mania de partir palitos de dente em minúsculos pedaços e na cabeça dele não fazia sentido uma pessoa que se porta com tanta afirmação de repente demonstrar aquela ansiedade. Ele queria dizer que…

Não, ela esperava que ele tocasse no assunto. Era papel dele, ou melhor, era obrigação dele já que ele tinha lhe convidado para aquilo, que ela não sabia dizer se era um encontro. Estava mais para um desencontro eterno em que viviam desde a noite que se conheceram. Será que ele pensava naquilo como ela pensava? Aquilo estava ficando tão platônico e utópico que a vontade que ela tinha era de jogar aquele copo de café fervente no rosto dele – não, no rosto não, na cara mesmo – e ver derretendo aquele sorriso que não acabava.  Aquele sorriso acabava era com as suas noites de sono. Será que ele não podia parar só um pouco? Ou então dizer logo o que ela queria que ele dissesse. Ela achava que…

Não, ele queria dizer que sentia muito por ter agido de forma tão irracional – racional – e maluca – sensata – naquelas últimas semanas, mas entenda que era porque ele tinha que evitar aquilo. Era o momento mais inadequado da vida pra ele se deixar levar por coisas tão absurdas quanto aquele olhar de túneis profundos no meio do dia. Será que ela não podia só fechar os olhos? Seria muito, mas muito mais fácil de beijá-la se ele não tivesse que encarar as profundezas da sua alma naquele olhar. Ela estava questionando em silêncio e se falasse ele ficaria sem argumentos. Ele começou a dizer que…

Ela achava que ele pediria desculpas por ter de ser sensato e diria que aquele não era o momento para estarem juntos, tomando café, e que ela não deveria esperar, mas seguir a vida como se nada daquilo tivesse existido. Talvez ele até negasse que algo aconteceu e tudo que ela queimava ia virar cinzas em pleno sábado. Ela precisava lhe dizer pra não fazer aquilo com ela, não seria suportável, mas sua boca não abriu e ela só conseguiu fitá-lo. Aquele sorriso. Ela se derreteu com tanta mansidão que ele tinha e perdeu a coragem de exigir o que quer que fosse. Ela queria que…

Não, ele que disse que na porta do museu, quando ela surgiu, ele perdeu sua única chance de fuga, pois que agora, ali naquela cafeteria, não tinha saída. Que ele precisaria ser mesmo corajoso pra roubar aquela mulher e deixá-la no lugar que era dela, sendo o túnel que era rumo pra luz em sua vida e, embora isso soasse meio cafona, era verdade que ele tinha mesmo se apaixonado pelo seu batom vermelho e seu tom arrogante de querer não ter dono. E, se ela deixasse, ele ia pedir que…

Ela queria tanto, mas tanto ouvir de novo o que ele acabara de lhe dizer, mas em vez disso pediu que não dissesse mais nada e lhe trouxe um beijo furtivo daquele que não tem como impedir e já não se sabia bem se o gosto era caramelo ou macadâmias, mas ele ficou aliviado que ela tivesse fechado os olhos e permitido que ele fizesse realizar seu pedido antes de terminar de falar. Era melhor assim. E era ainda melhor assim.

Lovers in a Small Café, 1932 by Brassaï
> Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) >

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