Amor em tempos de guerra

Pra onde vamos quando jogamos o amor fora? Existe um limbo pra onde todos os frustrados se vão, um lugar escuro e úmido com cheiro de mofo. Existem goteiras que sangram os erros e formam estalactites e estalagmites ao redor da sua cama, com sons de mil sinos distantes. Notas aleatórias de lembranças amassadas, rascunhos num caderno velho, roupas que foram lavadas e esquecidas, dados que somaram números inteiros. Nossas raízes matemáticas deram dízima, nossos salários negaram dízimos, nossas palavras deixaram dizeres estranhos e avessos.

Ali naquela masmorra solitária existe uma janela, mas lá fora a neblina esconde qualquer possibilidade de fazer sol novamente.

Pra onde vai o amor quando nos jogamos fora? Existe uma lixeira onde mergulhamos no chorume fétido das nossas almas, como um petróleo que contamina a água salgada do oceano. A mordida passa a amarrar a boca, o arrepio endurece em dor, eu olhei para o sol e quando entrei em casa estava cega. Queria reaprender a costurar a pele das feridas abertas, onde as bactérias se alojam na esperança de putrefazer e inflamar. E por isso ainda sangra chorume. O amor já não nos é mais potável em tempos de ira e guerra.

RECITALVITOR-9

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