A pílula de um novo dia

Atravessou a rua, quando o semáforo abriu para os pedestres. A cada três esquinas havia uma farmácia acesa noite adentro. Eram tempos em que as doenças davam lucros e as pessoas haviam se acostumado a precisar de comprimidos para enfrentar o cotidiano selvagem. A vida havia se tornado mais selvagem.

Chegou no balcão e pediu ao atendente, timidamente, uma caixa de um invento milagroso. Diziam que funcionava e já estava em desespero pra que aquilo de fato funcionasse. O que havia acontecido naquela noite fora tão absurdo e doentio! Precisava tomar uma providência antes que tudo saísse do controle. Não suportaria ter que lidar com o julgamento mais tarde! Só de imaginar o que mais aconteceria se aquela situação não fosse impedida, uma agonia lhe tomava conta do peito!

Era possível que uma simples pílula fosse a solução?

Tomara! – pensou.

Pegou o pacote, escondendo entre as mãos. Não queria que vissem o que estava comprando. Andou rapidamente até o caixa, olhando fixamente sempre em frente, evitando olhares casuais que pudessem lhe atravessar os pensamentos. Havia um medo de que conseguissem ler seus pensamentos vergonhosos. Não aguentaria mais conviver com aquela vergonha. Mas a pílula estava em suas mãos e tudo estaria resolvido em breve.

– Mais alguma coisa? – perguntou a mulher do caixa.

– Uma garrafa d’água, por favor – respondeu, de imediato.

A mulher fitou sua face, com uma feição curiosa, quando pegou o pacote de sua mão e passou pelo leitor automático. Seu pé começou a bater involuntariamente, enquanto ela computava a compra e recebia o pagamento. Só queria sair dali o mais rápido possível, sem precisar lidar com o olhar de julgamento dela. Era um constrangimento enorme precisar comprar aquilo. Podiam inventar uma máquina como as de refrigerante para se comprar aquilo, seria tão simples, bastaria colocar o dinheiro na máquina e a caixinha sairia pelo buraco. Ninguém precisaria saber o que você precisou comprar.

Pegou a sacola, apressadamente, e saiu da farmácia. Deu alguns passos pela calçada, respirou fundo, abriu a caixa, pôs o comprimido na boca e tomou longos goles de sua água sem gás. Olhou em seu relógio, eram dez para meia noite. Em quanto tempo será que faria efeito?

Esperou mais alguns instantes e passou adiante próximo a um posto de abastecimento. Havia um grupo de mulheres na loja de conveniência, estavam com suas cervejas à mão e uma alegria artificial. Então, foi se aproximando e torcendo pra que a pílula já estivesse funcionando. Respirou fundo e passou por elas, sem dizer nada!

Incrível!

Conseguira passar por ali sem sequer pensar numa expressão como “gostosa” ou “princesa” ou “gata”. Pela primeira vez na vida, sua boca não proferira uma ofensa sequer! De fato, aquela pílula era milagrosa! Talvez o seu instinto machista tivesse jeito e poderia começar a conviver normalmente em sociedade, sem estar sempre aterrorizado pelo seu instinto doentio! Sentiu-se exultante, enfim, e então André comprou uma cerveja e voltou para casa, sem sentir medo.

 

[Nós apoiamos: #PílulaFicaCunhaSai]

 

Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) 

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