A mea culpa em Ninfomaníaca, de Lars Von Trier

Ninfomaníaca vol. 1, não é, de maneira alguma, um filme sobre sensualidade e erotismo. Ele pode pincelar a paranoia maníaca de Joe com cenas bem realistas e isentas de sentimentalismo, porém Joe (interpretada por Charlotte Gainsbourg e Stacy Martin) não demonstra sensualidade, nem tampouco erotismo. É uma personagem fria e arbitrária, cujas atitudes são tomadas sem compaixão alguma por qualquer outra pessoa. No entanto sua ninfomania a torna resignada e cheia de culpa.

Pra quem não assistiu ainda ao último lançamento da trilogia da depressão de Lars Von Trier, que foi dividido em dois volumes, meu conselho é: não tenha medo de se sentir incomodado. O incômodo bate fundo nas entranhas de todas as crises existenciais humanas. A começar pela violência, que é muito mais uma violência interior do que física, a ponto de não se conseguir definir se é brutal ou sutil. O que não significa que não sangre um pouco.

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Joe, por Charlotte Gainsbourg

Acompanhado de uma trilha sonora pesada e uma fotografia tétrica, o filme começa com Seligman, um senhor solitário e culto estrelado por Stellan Skarsgård, voltando com sua sacola de compras para casa e se deparando com uma mulher ferida que se encontra estatelada no chão frio de um beco. Ele menciona que chamaria o resgate, ela não aceita e lhe pede uma xícara de chá quente. Seligman a leva para sua casa e lhe dá os cuidados perguntando o que lhe acontecera. A mulher com o rosto machucado e fundo é Joe e lhe diz que, para entender, ela teria que lhe contar a história de uma vida inteira.

Desta maneira começa a narrativa de lembranças de Joe, que vão desde sua infância até a fase adulta. A princípio o que parece ser inusitado e inocente para uma menina que está descobrindo o próprio corpo, aos poucos vai se revelando mais sórdido. À medida que Joe e sua amiga B. (Sophie Kennedy Clark) adentram no mundo desconhecido dos desejos sexuais, mergulham em profunda frieza quanto ao apego ligado ao sexo, a que estamos habituados. Em uma brincadeira, as duas fazem uma aposta, na qual aquela que fizesse sexo com mais homens dentro de um trem em movimento ganharia um saquinho de doces. O que à princípio soa como uma banalização do sexo, no entanto, é a ponta do iceberg, um distúrbio que coloca cada conquista como um troféu, em lugar da busca pelo prazer.

Joe não é uma mulher que gosta de sexo, é alguém que, acima de qualquer outra necessidade, precisa do sexo, assim como outras pessoas precisam de cigarro ou de uma dose de whisky ou de uma barra de chocolate. Não é pelo prazer, mas uma forma de compensar o vazio humano a que nos sujeitamos socialmente todos os dias. Uma necessidade que não é bela, mas suja e podre, como qualquer vício descontrolado.

Uma necessidade que passa por cima dos valores morais, que não enxerga fronteiras entre o aceitável e o proibido. Uma necessidade que desvaloriza a identidade de cada relacionamento, quando Joe arbitrariamente sorteia, todos os dias, os homens com quem vai sair e os que serão dispensados na lista interminável de sua secretária eletrônica. Uma necessidade que independe de vínculos emocionais quando cria um clube em que a principal regra é não dormir com a mesma pessoa duas vezes. Uma necessidade que atropela instituições como o matrimônio e a família, quando Joe se envolve com um homem casado e, desprovida de responsabilidade, faz com que ele abandone a esposa e os filhos. Uma necessidade que é inconveniente a ponto de não respeitar sequer os momentos de perda e dor, como a morte de seu pai.

Essa é a figura de uma viciada e não, de maneira alguma, de uma pervertida que faz sexo por diversão. Não chega a ser diversão quando não se tem controle a ponto de ter até oito parceiros em uma mesma noite. O corpo, que já não possui rédeas, se torna um animal; o corpo fala no lugar da moral, da razão e de qualquer sentimento humano.

E por que então não odiamos Joe?

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A jovem Joe, por Stacy Martin

A resposta é uma só: este é um filme de Lars Von Trier. O esperado é que, moralmente falando, não se aceite tal sordidez de uma pessoa viciada em sexo, exceto quando você assiste a filme deste diretor, que não teme enfiar a faca no nosso estômago e fazer vomitar a sordidez que tanto engolimos para entrar nas vestimentas dos politicamente corretos. Somos tão sórdidos quanto Joe, porque guardamos culpa por pecados que inventamos, e este é o motivo crucial que nos faz compadecer do sofrimento dela.

Lars Von Trier faz um trabalho impecável com suas analogias filosóficas em Ninfomaníaca. A estratégia utilizada por Joe em sua jornada de conquistas dentro do trem é comparada a técnicas de pescaria, quando Seligman destrincha os diversos planos que utiliza para a captura de um peixe, enquanto Joe, com atitudes vazias de preocupação, trata seus futuros amantes como vítimas em um jogo de sobrevivência. Porque no fundo não deixa de ser sobrevivência, para ela.

Ao longo do filme, Joe observa detalhes no quarto em que está hospedada na casa de Seligman, cada detalhe do quarto remete a uma passagem de sua vida. Primeiramente uma legenda em que se inscreve “Mrs. H.”, trazendo à lembrança a situação de loucura de uma esposa que foi traída, a quem ela nomeia de Sra. H., estrelada por Uma Thurman em uma interpretação brilhante, provavelmente uma das melhores de sua carreira, mas deixo a curiosidade de assistir à cena e pouparei spoilers. O que configura esta passagem de grande importância na vida de Joe é que, pela primeira vez em sua narrativa, ela se revela repleta de culpa, algo insuportável com o qual não consegue mais conviver, o peso de todas as suas atitudes pecaminosas e isentas de misericórdia para com as pessoas com as quais se relacionou. Isso a atormenta de tal maneira que encontramos ali a essência de uma pessoa sem a menor esperança de melhora ou de solução para sua vida de vício. Eis o ponto em que nos compadecemos dela, pois não somos nós também viciados em tantas coisas torpes a ponto de passar por cima da humanidade e do amor ao próximo muitas vezes?

Sua conversa com Seligman é profunda quando diz respeito à culpa. Seligman discute com Joe em um tom leve, tentando lhe fazer enxergar que a culpa é a real fuga dela para consigo mesma, pois a culpa a leva a se punir por ser quem ela é. De certa forma, a relação que Joe estabelece com Seligman durante a narrativa é algo que nos faz pensar em como seria nossa conversa com Deus se tivéssemos que explicar todas as atitudes erradas que tivemos em vida e justificar cada uma com punições que nós mesmos nos imputamos. No entanto, que justiça é essa? Seríamos nós responsáveis por todas as punições cabíveis em detrimento das culpas?

E antes que possamos concluir esse questionamento, Joe mergulha em outra observação sobre um livro que estava ali parado naquele quarto. Um livro de Edgar Allan Poe, a quem Seligman se refere como um escritor que mergulha no próprio terror de sua existência, quando morre em um estado de delirium tremens, uma psicose que se estabelece após um período de abstinência do uso de uma droga que usava com frequência. Desta vez, Joe compara o fim tórrido de Poe com os últimos dias de vida de seu pai (Christian Slater). O que nos deixa em dúvida sobre quem de fato entra em estado de delirium tremens neste caso: seu pai, um médico que adoece e permite que a doença lhe enlouqueça por estar no lugar do paciente em vez de ser o salvador de vidas; ou ela mesma, Joe, que, por conta do estágio avançado da doença dele, se recusa por algum tempo ao seu vício, até que se entrega completamente a isto a ponto de torná-lo, não uma satisfação, mas o único remédio contra qualquer dor que ela sinta pela morte do pai. E por fim, ela não sente nada.

Sua ninfomania é um estado de torpor.

Sua insensibilidade leva à discussão final deste primeiro volume: o prazer sem sentimento, até que ponto? Em muitos momentos, Joe se lembra de sua amiga B. lhe dizendo que o melhor do sexo era o amor e, por fim, parece que Joe se sente frustrada por nunca ter alcançado isso. Sua relação de idas e vindas com Jêrome, interpretado belamente por Shia LaBeouf, comprova a sensação de fracasso de Joe, uma mulher que, sempre em busca de novas experiências e prazeres que nunca lhe satisfaziam, não conhece nada de amor – como diz o cartaz do filme, “Forget about love”.

Quando Joe pergunta a Seligman sobre o que tinha para tocar em seu aparelho de som, ele diz que andava escutando Bach. O conceito de sinfonia desenvolvido por Bach, com três melodias que se encaixam simultaneamente, é a última analogia que se faz à compulsão de Joe, quando ela compara os três parceiros frequentes que mantinha ao mesmo tempo e o quanto cada característica deles era uma melodia única. Apesar de parecer sensível, não é uma comparação carinhosa, a sinfonia de Joe é cruel, muito mais consigo mesma do que com os outros e só podemos imaginar o sofrimento que vem depois, quando ela deverá chegar ao extremo de sua compulsão, sua culpa e sua autopunição. É o que nos aguarda no próximo volume de Ninfomaníaca, ainda sem data de lançamento.

Depois dessa dramática avalanche de questionamentos e vazio humano a que somos submetidos ao assistir a essa obra, definitivamente, sexo será a última coisa em que você vai pensar. Afinal a grande polêmica em Ninfomaníaca está longe de ser a sexualidade ou o erotismo, vai bem mais além e não é nada prazeroso.

 

> Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) >

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