A dor de estar Sob a pele, de mulher

1-scarlett_johansson_under_the_skin_movie-HDQuando os cinemas exibiram Sob a pele, filme de Jonathan Glazer, a grande polêmica girava em torno da nudez completa de Scarlett Johansson. Confesso que eu mesma estava delirando só com a ideia de vê-la com meus próprios olhos, porque afinal não faz diferença uma orientação sexual, basta ter olhos pra achar essa mulher incrivelmente – com o perdão da palavra – gostosa. Talvez pelo olhar fotográfico, ou apenas por uma certa inveja, queria verificar a realidade da beleza da Scarlett poro por poro, pra me garantir de que não era uma grande mentira.

Acredito que muitos procuraram o filme apenas pelo mesmo motivo. Curiosidade e tesão.

O que a gente nunca espera é que tudo seja na verdade uma grande jogada de marketing, que se utiliza do nosso apetite sexual e visual pra jogar na nossa cara uma verdade dura de engolir: como é ser o corpo de uma mulher. Sim, ser o corpo de uma mulher.

Para isto, Jonathan Glazer com genial esperteza escolheu Scarlett para interpretar sua protagonista e com esperta genialidade escolheu uma alienígena para interpretar o corpo de uma mulher. Por que tal escolha poderia ser tão traiçoeira a ponto de nos levar ao cinema sedentos pra ver o corpinho inteirinho nu da Scarlett? A princípio não achamos uma resposta óbvia, nem sentimos incômodo quando já na abertura ela surge livre de roupas. Mas capítulo a capítulo o incômodo vai tomando conta.

Aquela mulher não é qualquer mulher, na verdade sequer é bem uma mulher, mas se utiliza do poder do corpo de uma mulher para atrair o que deseja: suas presas, os homens. E neste caso não estamos sendo metafóricos por tratar homens como presas. Literalmente os homens entram no jogo de sedução e acabam sendo engolidos pela ilusão de possuir aquela belíssima mulher.

Ela aborda os estranhos com conversas fiadas, deixando-os num estado hipnótico que eles mesmo se permitem estar. Ao longo do filme fica claro que o ego masculino é diretamente proporcional ao estado de hipnose em que os homens mergulham. E o mergulho acaba sendo dentro de uma armadilha montada especificamente para aqueles que se deixam levar pelo desejo. As cenas causam estranhamento pelos elementos simbólicos utilizados para remeter à morte dos indivíduos que se deixam ser seduzidos pela alienígena, quando eles vão afundando sem perceber dentro de um líquido obscuro, que talvez remeta à própria mente humana, ou aos desejos carnais.

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De presa em presa, ela vai assumindo maior poder de sedução, até que se encontra com um homem cujo rosto deformado o impede de acreditar no próprio potencial de se aproximar de uma mulher bonita. Descrente do interesse dela, ele não entra no jogo a que ela está acostumada, o que dificulta seu bote. Com seu fracasso, ela se sente incapaz de atrair novas vítimas e começa a procurar entender a raça humana, primeiro experimentando comer um pedaço de bolo e, em seguida, se aproximando de um homem com a intenção de experimentá-lo no sentido sensorial.

No entanto, por uma suposta ingenuidade da extra terrestre, ela não podia esperar nada de um ato sexual, dado que nunca tinha vivenciado um e se descobre impossibilitada de ter tamanho envolvimento, sem que descobrissem sua real identidade. Assustada com a possibilidade de ser descoberta, ela foge para dentro de uma floresta, onde é abordada por outro sujeito que tenta violentá-la e então descobre o que há por baixo da pele daquela falsa mulher. 22-04-2014-scarlett-filme-sem-roupa

Com medo do que acabara de encontrar, ele acaba por por fogo na criatura, que sai perambulando sozinha em chamas pela floresta e carboniza completamente. A sensação a que nos envolvemos neste enredo é imensamente incômoda, pois primeiramente nos vemos julgando o poder do corpo feminino de dominar qualquer criatura através dos seus desejos. Por fim temos clemência da fragilidade daquele mesmo corpo que em um ato violento se torna frágil e destrutível. Não apenas o corpo, mas todo o ser que havia sob a pele de mulher.

Apesar de complexo e abstrato, Sob a pele é um filme pra refletir e deveria estar na lista de filmes feministas da atualidade. Recomendo mas com restrição, prepare o estômago antes de assistir.

*Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) 

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