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Quando me aproximei, eu soube. Não precisei pestanejar, não precisei de confirmações, não precisei consultar nenhum mapa astral. Os astros já haviam trabalhado muito até aqui pra arranjar esse encontro cósmico, tão complicado quanto planetas realinhados. Ficamos ali alinhados, lado a lado, como duas peças num tabuleiro de xadrez, aguardando a estratégia de um bom mestre antes de saltarmos para a próxima casa.

Abrimos no capítulo vinte e um e era dia vinte um de julho, antes que o inverno de fato ficasse cruel como nunca antes. Antes que a gente ficasse querido como nunca antes. Querido com um querer estranho, porque éramos um e um.

Abrimos no capítulo vinte e um e era dia vinte um de julho, antes que o inverno de fato ficasse cruel como nunca antes.

Ainda, dois corpos celestes alinhados que não haviam se encontrado antes. Antes era uma história longa, dois percursos de dois lugares diferentes do universo. Acontece que na matemática do universo já fora arranjado que o ponto seria este, todas as coordenadas calcularam ano mês dia hora minuto e segundo pra que então, num golpe bem arquitetado, fosse dito: xeque.

Mas não em força e volúpia, foi com sutileza e respeito que me derrubara, como aquilo que se despeja num cálice novo para o primeiro gole de um brinde especial. E era, aquele dia vinte e um. E quando lemos os seus versos, os presentes foram entregues embrulhados. Eu sabia então o que vinha dentro da caixa mesmo sem abri-la, mas se alguém me perguntasse eu não saberia dizer, porque na verdade aquela caixa era um mistério tão grande pra mim quanto todas as páginas que faltavam ler naquele livro.

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Estamos à distância de um livro. Ele aberto nos separa de fisicamente nos encontrar, ele aberto nos conecta como desculpa pra estarmos ali. Unidos por um livro. Ele aberto ao meio nos diz quem somos e como viemos parar aqui, ele aberto nos pergunta quem queremos ser e pra onde queremos ir. A direção é uma só: o livro aberto se divide em dois, mas quando se fecha permanece um.

Um e um, dia vinte um.

Não obstante, desviamos de todas as esquinas possíveis, com todas as jogadas possíveis e estratégias, para então virmos nos encontrar na hora errada, na hora exata, na hora certa. Os ponteiros continuam girando, o pulso continua constante, o tempo ainda não congelou apenas porque isso é coisa de livro de fantasia. E esse livro não tem fantasia. Eu é que esqueci minha máscara sobre o criado-mudo, tirei capuz e capa quando me adentrei pelos portais. Eu cheguei gramado recém cortado e verde, recepção acalorada nos jardins, pois o primeiro lugar que uma visita encontra é o jardim.

Flores não faltam, mas as roseiras não foram podadas ainda nesta estação.

E quando viramos as páginas, como uma porta que se abre, abriu-se também os versos, abriram-se os dedos pela capa do livro. Num erro de cálculo acabamos num segundo encontrando calor e calafrio, uma campainha que soa num corredor silencioso, o semáforo que muda de cor instantaneamente, a primeira gota da chuva que só ameaçava, uma estrela cadente que só existiu por um instante curto de percepção. Eu vi e também você, ela brilhou apressada nos olhos, quase de mentira, mas que só acreditamos porque vimos, porque sentimos, porque sabemos.

E porque é dia vinte um, no capítulo vinte um.

> Saiba mais sobre a autora: Giovanna, ou Picles, é fotógrafa e produtora cultural, formada em Letras e pós graduada em Cinema e Fotografia. Acredita que a mudança só se efetiva através de (…) >

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