Vadias

Alcançar o inalcançável é o milagre das manifestações

Texto: Mayara Almeida
Fotos por: Gabi Ziliotti

Tudo o que eu falar agora será apenas um recorte. Isso por si só acaba sendo um desrespeito com um “lado” ou com outro. Mas recortes é o que fazemos a vida toda, como uma das formas de procurar entender. Esta é a minha humilde tentativa.

Penso que é fácil chocar, difícil é desdobrar o assunto. Digo isso me referindo a todo tipo de manifestação que existe e ainda vai existir e me pergunto: quando um grupo se manifesta, se manifesta pra quem? Essa organização de pensamento, a meu ver, faz toda a diferença. Que ao sentir vontade de se expressar, se deve primeiro saber para quem se expressa: seja pra você mesmo, para uma única pessoa, para um grupo ou para o mundo inteiro. Essa consciência é que vai nortear o curso da onda e quem sabe despertar a calmaria do outro ou dos outros.

No caso da Marcha das Vadias, a começar pelo nome, é necessário que haja algo depois da nomeação, que faça valer a provocação. Do contrário, o telespectador, totalmente a parte do movimento, vai pensar e rapidamente concluir que isso é um despautério, caso não exista nenhum outro embasamento dando credibilidade ao movimento. Não que o motivo dele já não valha, mas na realidade em que vivemos, a mesma que comporta policiais que dizem ás vítimas de violência sexual, que são elas próprias as culpadas pelo fato de usarem roupas provocantes, faz necessário que você se imponha. Infelizmente, o motivo, o movimento e o nome que ele leva, a fim de provocar a sociedade, não são suficientes para aquele telespectador de uns 60 e poucos anos (e aqui não estou pensando nas exceções mas na maioria), esse cidadão vai filtrar apenas: vadias, roupa provocante, culpada de ser estuprada. Mesmo que o noticiário tenha explicado no que consiste a marcha. E aí? Qual foi o a mudança na sociedade? Nenhuma.

” (…) nos contentamos com resultados medianos que fogem da proposta inicial que é justamente a mudança brusca (e necessária)”

Pra mim, a marcha valeria a pena se conseguisse, através da vontade e também de uma proposta inteligente de expressão, alcançar os inalcançáveis – leia-se: os conservadores. Afinal não é esse o objetivo? Ou nos contentamos com resultados medianos que fogem da proposta inicial que é justamente a mudança brusca (e necessária).

Eu mesma me perdi, mesmo que, a princípio tenha achado o máximo. Essa marcha em especial, carrega dores bastante específicas das mulheres e atinge ou deveria atingir todos os gêneros, incluindo vítimas e culpados. No entanto, a marcha aparece na mídia como algo que choca por chocar – quando aparece. É claro que a questão da notícia como é publicada e a escolha do que é “publicável” faz toda a diferença, seja negativa ou positiva. Mas se pararmos pra pensar naquela pergunta que fiz no início, para quem a marcha se manifesta? Ela alcança seu público alvo, ela representa todos que deveria representar? E essa pergunta implica, sobretudo, em como fazer para representar. Não vamos esquecer que o ibope quem faz somos nós e os meios de comunicação muito caminham a partir dos resultados deste.

A forma como a manifestação se dá, não é forte o suficiente para sustentar e se impor para qualquer um que vá falar sobre ela, ou seja, ela surte um efeito equivocado de bagunça e às vezes uma polêmica que começa e termina em si mesma, sem outros propósitos mais consistentes. E esse, na minha opinião, é um abismo muito visitado por quem se manifesta, pois ao mesmo tempo que seus participantes demonstram uma forte crítica social, os mesmos não se equipam de armas suficientes para se impor nesse contexto, afinal, por pior que seja o mundo, é nele que vivemos e nele devemos saber viver. A mídia, noticia o que é fácil entender, de acordo com os elementos em evidência. É praticamente improvável que o veículo da comunicação vá se aprofundar e dizer “a marcha, que promove tanta bagunça pelas ruas, tem um objetivo muito importante”, isso é sonhar alto demais.

A performance feita pelo Coletivo Coyote, é um exemplo bem tenso de polêmica. Alguém engajado no grupo, diria que é preciso entender o que fazem. Pois bem, meu questionamento é justamente esse, entender. Uma performance que acontece “do nada”, em meio a marcha das vadias, e se expressa quebrando uma santa de gesso, pessoas carregando uma cruz no corpo e introjetando objetos no ânus, o que mais os olhos do mundo vão entender? Achar que a sociedade em que se vive e que tanto analisamos como decadente, vai, através do choque, refletir, nesse caso, é quase uma ignorância, redundante ainda por cima.

O ato de quebrar a santa pode sim ser a forma encontrada para, através do mal-estar causado, simbolizar os nossos arraigados valores, que tanto ultrapassam outras questões e etc, porém, para mim, há sim um pecado, que é não tentar entender o porquê dos valores arraigados – que nesse caso não é somente um valor dado a uma estátua, mas sim fé. E se para criticar a performance do Coletivo Coyote é preciso entender que a arte prima pela liberdade de expressão, é preciso entender também o outro lado, que pessoas acreditam naquela representação em gesso e que a santa é tão importante quanto se manifestar contra a violência sofrida todos os dias pelas mulheres, sim. São apenas importâncias de instâncias diferentes. E nem é preciso ser católico para chegar a essas conclusões, como de fato quem aqui escreve não é.

Existe pra mim, um erro de cálculo, que fatalmente muda os resultados desejados. É preciso ter bem definido o que se quer atingir, se o coração ou a razão, mas sabendo desde o início que o coração tem razões que a própria razão desconhece e às vezes cabe a nós apenas respeitar, sem necessariamente precisar entender.

A marcha em sua essência, é o mais importante. Mas se ninguém pensar em como contar essa história, para quem estamos contando (incluindo os culpados), se não contarmos de maneira clara, com início, meio e fim, facilmente acontece o que vemos hoje. Eu, mulher, que repudio a violência moral e sexual contra as mulheres e, portanto, defendia a marcha das vadias, hoje me sinto confusa se é um pouquinho de macarrão com um porrão de macaquinho.

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