Quanto era a garrafinha de água mesmo?

Duas horas da tarde, sol a pino na Vila do João. No ponto de ônibus, meninos vendem água “é dois, água é dois!”. O tanto que demora para o ônibus chegar que deu pra me envolver com aquele jogo ilógico de crianças de uns oito anos disputando a venda da garrafinha de água: uns quinze ao redor dos passageiros e do ônibus que demorava mas ali paravam.Um dos meninos fiquei na dúvida se era criança ou um adulto. Tinha o jeito de pai dos outros meninos, uma pochete transpassada no pescoço e uma baita agilidade contando as moedas e algumas notas na bolsinha. O jeito do menino influenciou no físico, tornando a imagem confusa pra quem o via e não decidia se era menino ou adulto. Mais a frente, outro gerente do negócio de água, este claramente mais velho, comentava com os menores do dia anterior, quando a chuva ilhou as pessoas numa marquise e ele acabou vendendo água até a cinco reais. O cara contava vantagem e as crianças, faziam cara de “uhum”, estavam mais preocupadas em vender água, do que na bobeira de contar vantagem.

Um calor infernal. E eu ainda esperando. Esse transporte público de merda. O ônibus não vai passar nunca mais, eu já com a marcada da blusa, pegando um sol no ponto de ônibus da Vila do João, onde meninos e adultos, adultos-meninos vendem água e a água tá acabando porque ninguém pensa em ninguém, por isso não existe essa história de economizar.
Graças a Deus o ônibus!

E eu esqueci dos meninos da água da Vila do João.

Saiba mais sobre a autora: Mayara tem formação na área de Educação pela UERJ. No curso de Pedagogia aprendeu a ler o mundo por linhas tortas e não fosse por isso, talvez não teria escolhido cursar Jornalismo, sua segunda graduação. Frágil ao que é (…)

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