O tempo as vezes diz oi

tempo_gravidez_graodefato

Era por volta da década de 40. Numa estrada de terra, caminho do canavial, ela andava com seu pai e suas irmãs para cortar cana. Debaixo de sol, outro grupo passava, ela e o rapaz trocaram olhares, provavelmente com respingos de suor, que escorriam da testa coberta pela blusa mais aquele chapelão pra proteger do sol.

Foi assim que minha vó conheceu meu vô. Depois de alguns dias de trocas de olhares, ele foi até a casa do meu bisavô – que, diga-se de passagem era bem bravo – e, destemido, pediu a mão da moça ao seu pai.

Dessa história nasceu minha mãe e seus 5 irmãos, que viveram muitas histórias na roça. Depois que meu vô faleceu, vieram todos para o Rio de Janeiro. Foi no final dos anos 80 que nasci, em meio a fraldas de pano, ursinhos carinhosos, e muito amor pela primeira criança na família.

Anos se passaram e eu me casei com o filho de um médico com uma assistente social, ambos, por sua vez, com suas histórias. Nos misturamos todos e nos almoços de família, cada um relembra algum fato “daquela época”.

Quantas vezes ouvi minha mãe detalhar como meu parto foi difícil e que eu passei a mãozinha no rosto dela, quando me colocaram em seus braços. Além de outros detalhes dessa história, como por exemplo a reação de algumas pessoas quando ela, solteira, engravidou. Teve gente se oferecendo pra ficar comigo e minha mãe, abismada, abstraía os ignorantes do seu amor de mãe que já nascia, antes mesmo de mim. É recorrente ouvir meus sogros também contarem como o “Juninho” era uma criança agitada. E eu me pegava imaginando como seria essa mistura de um pouco de mim com um pouco dele, que tem cinco anos de mundo a mais que eu. Pensava na aparência física do nosso bebê e sempre imaginava uma criança linda!

Até que…tem momentos na vida, raros, que tudo o que a gente ouve, absorve, ignora, sente, fala, silencia, tudo se conecta e você tem um lapso de compreensão ou quase isso, sobre o mistério da vida.

Quando você menos espera, num sábado qualquer, descobre que está grávida, em 2015, longe e ao mesmo tão próxima das histórias da sua mãe, na roça e ouvindo sua vó dizer que quer viver mais para conhecer seu primeiro bisneto (a). A vida tem dobras, voltas, formatos que ocorrem por força misteriosa. Tem gente que toca no mistério, por meio da dor ou da felicidade.

Depois daquele sábado, surgiu em mim uma sensação recorrente, porém menor que um instante, de que estou tocando no tempo. Para além dos seios doloridos, toda essa coisa de hormônios circulando em mim, um dos sintomas é ver claramente como tudo está conectado. Estar grávida é um turbilhão de sensações e ainda assim de uma sutileza ímpar.

Estar grávida é literalmente tocar no passado, no presente e no futuro.

Saiba mais sobre a autora: Mayara tem formação na área de Educação pela UERJ. No curso de Pedagogia aprendeu a ler o mundo por linhas tortas e não fosse por isso, talvez não teria escolhido cursar Jornalismo, sua segunda graduação. Frágil ao que é (…)

Seja o primeiro a comentar