Estava com saudades

Faz um tempo, o céu era azul.

Tinham pássaros passando, pra cá e pra longe.

E tinha a moça apressada naquela terça-feira descabida, o cara que vende pipoca parado na esquina, o som dos carros passando na rua, tinha você em silêncio vendo algo no computador.

E também tinha o modo como aquela família comia no restaurante, sem se olhar, sem trocar uma nem duas palavras.

Na rua, passava o vento e eu sentia arrepio ou as vezes era refresco. A saia subia, o cabelo despenteava e, lentamente, sem pressa pra nada, arrumava-me toda, já esperando por outra brisa.

Eu curtia o dia em toda uma depressão – puro charme, e fazia questão de suspirar. Era tempo em que eu tocava no tempo e não o contrário.

Adivinha hoje quem me toca, esbarra, tromba…

Dia desses, foram minutos: numa vaga, o carro, eu, a janela. Era dia nublado, o comércio ao redor, mas por uma brecha, havia silêncio.

Eu tinha saudade do silêncio. Tocando Silva no rádio, playlist que coloquei propositadamente, eu sentia o cheiro de poeira, olhava pelo vidro da janela e ouvia o silêncio de todas as letras, do céu propício, do cansaço catedrático.

Pra eu ser eu, é necessário silêncio.

E lá estava eu, sendo.

Saiba mais sobre a autora: Mayara tem formação na área de Educação pela UERJ. No curso de Pedagogia aprendeu a ler o mundo por linhas tortas e não fosse por isso, talvez não teria escolhido cursar Jornalismo, sua segunda graduação. Frágil ao que é (…)

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