Mulheres que assombram

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Era um programa do canal da tv a cabo, Discovery Home and Health, em que uma dupla, um homem e uma mulher, faziam “transformações” em mulheres que supostamente lhe enviavam pedidos de ajuda. Eu assistia ao programa a princípio sem nenhuma rejeição.

A moça era gordinha e em uma das cenas chorava por não conseguir encontrar roupas que lhe coubessem. Corta para os apresentadores: a dupla ocupava o papel de algum tipo de verdade superior que deve ser dita ao telespectador, repudiando o “drama” da mulher, já que ela deveria ter mais ânimo para agradar e surpreender o marido, diziam eles.

Aquilo me incomodou. Não troquei de canal, pois o entretenimento falou mais alto e eu, curiosa, quis ver se ela ficaria bem com o cabelo da Penelope Cruz.

Ficou bacana, mas o fato é que, primeiro, ela não é a Penelope e segundo, a transformaram em uma mulher montada. Fiquei frustrada pois a moça só se “transformou” para um episódio de um programa que nem a quis afagar quando ela dividiu com as câmeras seu incontrolável sofrimento, tão pouco foi dito algo sobre essa história de padrão de mulher etc.

Desliguei a tv, estava atrasada para ir ao shopping encontrar com J. Cheguei primeiro e o esperei lendo um livro na travessa. “Sete Anos”, o mais novo lançamento da Fernanda Torres, essa mulher surpreendente, pra quem pago o maior pau.

Me dei conta de que tinha esquecido em casa o pedaço de fita que fiquei de levar. Em breve, vou me casar com J., (não tenho nenhum livro de receitas ou interesse em aprender a fazer sobremesas, tenho pouca sagacidade pra limpar uma casa) e esqueci a amostra pra comprar mais fita para dar laço no nosso convite de casamento. Fiquei pensando se deveria me preocupar com a minha reputação de futura esposa mas logo me distraí e esqueci da preocupação.

Para resolver algumas coisas naquele dia, precisei faltar à academia. E por conta disso acabei lembrando que a menina do trabalho me contou um dia desses sobre alguém que fuxicou no facebook e que me deixou pensativa. Segundo ela, a menina da história do fuxico do facebook tinha “um corpinho mais ou menos, usa óculos, o cabelo não muito liso mas também não era esticado, e é sem gracinha”.

Eu fiquei intrigada com a descrição e tinha ido ver a tal menina do facebook. Olhei, olhei e não encontrei problemas na simetria do rosto, na posição dos óculos, no cabelo, muito menos no corpo. Mas sou dessas que curte usar o cabelo naturalmente enrolado e portanto acho que não estou apta a fazer esse tipo de análise estética.

Sei lá, achei a menina era naturalmente linda, só não se enquadrava no padrão “rainha de bateria”.

Foi então que eu pensei nisso tudo. Ah…minha falta na academia… a crueldade do padrão de beleza para o qual eu não ligo, a cintura de pilão que eu quero e os ajustes que tragicamente terei que fazer no vestido de noiva…aliás, a péssima noiva que eu sou esquecendo de levar um simples pedaço da bendita fita para dar laço no convite…eu, uma paródia do Jamie Oliver, sem intimidade com a cozinha…que ao invés de decorar receitas na Livraria da Travessa, fiquei admirando esse sucesso Fernanda Torres e suas maravilhosas crônicas…que tipo de mulher eu sou? Que tipo de mulher eu vou ser para o meu marido? Meu deus, que tipo de mulher eu serei pra mim?!

“Vamos experimentar o grill que compramos?”, vamos! É que eu me distraio muito com as coisas boas da vida, como por exemplo, ele adorar cozinhar.

Será que era eu quem deveria estar cozinhando?

 

Saiba mais sobre a autora: “Idealizadora do Grão de Fato, Mayara tem formação na área de Educação pela UERJ. No curso de Pedagogia aprendeu a ler o mundo por linhas tortas e não fosse por isso, talvez não teria escolhido cursar Jornalismo, sua segunda graduação. Frágil ao que é inspirador, viveu uma (…)”

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