Uma mensagem na garrafa de fibra ótica

Existe ‘ex’ pra tudo. Todo mundo em algum momento da vida será ‘ex’ de alguém ou de alguma situação. Isso pode motivar os mais variados sentimentos: angústia, alegria, alívio, rancor, etc. No entanto, entre todos os ‘ex’, o que mais me intriga é o ‘ex-amigo’. Sim, eles existem. Não estou falando daquele amigo que se distanciou por uma grande pisada na bola – independente de quem seja o pé ou a bola envolvidos na questão. Mas sim daquele que deixa de ser considerado amigo sem que ao menos saibamos o motivo. Com esse ‘conhecido estranho’, se a distância não impedir, será sempre um sorriso amarelo toda vez que vocês se encontrarem. Nessa hora é inevitável você se perguntar: “Como pode ser, um dia fomos tão amigo e hoje nem nos conhecemos?”.

 
Há quem diga, embasado em estudos obscuros, que uma amizade com mais de sete anos possui grandes chances de se prolongar até o resto da vida. Como não conheço muitas pessoas que: A) estejam com idade avançada e B) tenham amigos de décadas; não posso atestar empiricamente essa teoria. Portanto, chego à conclusão de que os ‘ex-amigos sem motivo’ devem existir em números expressivos. E ainda não sei se as novas tecnologias têm/terão impacto no aumento ou diminuição destes números. Em tempos de Facebook e afins, a palavra ‘amigo’ ganhou novos significados e utilidades. Por enquanto, deixemos esta questão para o futuro.
 
Mas, olhando para o passado e vivendo o presente, nota-se o quanto o amigo sempre foi muito desvalorizado no crescente mercado de ‘ex’. Todo mundo se lembra de um ex-paquera, ex-patrão, ex-ficante, ex-marido, ex-parceiro, ex-empregado… Mas dos ‘ex-amigos sem motivo’ só nos lembramos após inesperados reencontros ou depois de muito olhar para a parede da memória – e nem é preciso mirar o quadro que dói mais.
 
Um amor quando se torna ‘ex’ quase sempre deixa um rastro de dor que, com doses de talento (ou dá bebida certa) vira música, daquelas que cantamos em fins de noites. Já os outros tipos de ‘ex’, se não doem, deixam pelo menos as histórias: “Não suportava meu ex-patrão”, “Meu primeiro ficante foi uma coisa tão inocente”… No entanto, um amigo só rende uma boa história quando tem canalhice no meio – por exemplo, uma traição daquelas capazes de transformar o ‘amigo de fé irmão camarada’ em um ‘ilustre conhecido desconhecido’. O que, por si só, já justifica o distanciamento. Mas, volto a insistir, existe o grupo dos ex-amigos sem motivos aparentes.
 
E, qual é o local que destinamos aos que compõe este último grupo? Não se sabe ao certo. Estes amigos podem se tornar ‘ex’, como diria Leminski, ‘da passagem de Elvis para os Beatles’. Ou seja, após uma mudança qualquer – de cidade, de curso, de religião ou de qualquer outra coisa. Porém, se a relação não sobreviveu a uma simples mudança, podemos dizer que tinhamos de fato uma amizade? Como não possuo a régua capaz de medir uma amizade de primeira ou segunda grandeza, creio que sim. No entanto, o que me intriga é que, com o passar dos anos, o fim destas amizades não motivam grandes (e inesperadas) dores; como os amores mal resolvidos ou ódios mais ou menos justificáveis. Com o ‘ex-amigo sem motivo’, a gente vai se conformando, aceitando. São como as sutis mudanças das árvores: você sabe que algo está diferente, mas não sabe dizer o quê.
 
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O que resta é: se um dia houve cumplicidade, a passagem dos anos encaixota tudo e despacha para longe a necessidade da companhia mútua. Escrevendo pode até parecer simples. Uma cena hipotética ilustra isso melhor:
Sobem ao palco dois novos amigos. Amigo 1:  “Vamos na casa de tal pessoa, vocês eram tão próximos, não se largavam”. Amigo 2: entre o constrangido e o surpreso, não sabe o que responder, hesita.
Na vida, acho que fui mais Amigo 2 do que o Amigo 1. E, quando desempenhei este papel, sempre me perguntei onde estive durante o intervalo de tempo em que trouxe mais um ex-amigo para o mundo. Nunca consegui formular uma resposta. E, até para estas situações, temos uma frase clichê – assim como o traidor sempre tira da manga um ‘não é nada disso que você está pensando’ -, nós, diante do “mas aconteceu alguma coisa entre vocês?”, sacamos um: “não, nada, a gente ficou um tempo sem se falar, sabe como é: vida corrida, fomos perdendo o contato, foi isso”. O que na maioria das vezes corresponde a realidade. 
 
E os ex-amigos vão tocando suas vidas, casam-se, mudam de emprego e vivem por aí. É um passado que não pede resposta por, aparentemente, não nos fazer falta. Todos, em maior ou menor grau, temos a nossa coleção íntima de  ex-amigos. Como ninguém fala muito sobre o assunto, não sei se eu os tenho em número considerado normal ou não (e nem sei que número pode ser considerado normal). No entanto, depois de muito pensar sobre o assunto, resolvi fazer um gesto totalmente inútil na tentativa de dar um lugar para os meus ex-amigos. 
 
(Utilidade demais engessa a vida, dê-se o prazer de ser inútil)
 
O método é simples:
 
1 – Determine um recorte temporal: no meu caso escolhi o período que vai de 2003 à 2013, uma década em que conheci muita gente. Alguns, são presentes até hoje. Outros, não sei por onde andam.
2 – Não personalize demais: não pense em um amigo em específico, isso pode prejudicar o resultado do exercício, ao deixar de lado outros ex-amigos, mirando apenas em um. Pense nas pessoas que marcaram sua vida durante o período escolhido de maneira geral. 
3 – Bote no papel: escreva para este ex-amigo(os) uma mensagem com o que vier na sua cabeça.
 
Sim, a ideia de escrever para alguém do passado, que já não temos contato, que nem sabemos se lerá a mensagem, não faz nenhum sentido. Mas, há 500 anos soltar uma garrafa com uma mensagem no mar também não fazia muito sentido – o que ainda não faz – mas tinha (e ainda tem) lá a sua beleza. E, se hoje a nossa principal forma de navegação é a online, lanço neste mar virtual minha mensagem guardada dentro de uma garrafa feita de fibra ótica:
 
           “Olá, como vai? Faz tempo que não nos vemos, não é mesmo? Na verdade, pouco sei sobre você e os rumos que sua vida tomou. Creio que você também não saiba muitas coisas sobre mim. Isso não é motivo de rancor ou tristeza. Não busco os motivos para o nosso distanciamento, coisa que você também não precisa saber/buscar. O fato é que se um dia fomos amigos, hoje já não somos. Nem nos falamos. Isso é um fato. Apenas isso. Te escrevo sem intenção de alterar isso, meu ex-amigo.
           No final das contas, as coisas deram mais ou menos certo para o meu lado. Muito do medo que eu tinha naquela época em que vivíamos juntos se mostrou injustificável. A vida não é tão complicada quanto parece. Primeiro a gente aprende a pegar ônibus sozinho, depois vê que operações bancárias não são tão complicadas, ganhamos cartões, aprendemos a viver fora de casa, a trabalhar, a pagar as contas… Quando caímos na real é isso: estamos vivendo. É como andar de bicicleta. Você sempre dá uma bambeada no começo, mas nunca consegue precisar quando de fato saiu pedalando. Inesperadamente você sente o vento na cara e um único pensamento passa pela sua cabeça: ‘se eu parar de pedalar, eu caio’.
          Então é isso, estou pedalando.
          Tenho um emprego que, se não é o melhor do mundo, pelo menos é suportável, na medida do possível. Tenho alguns amigos que posso contar e falar bobagens. Saio ocasionalmente. Gosto de bares. Fumo. Quando não trabalho, tento viajar para algum lugar que não seja muito longe, mas que tenha mato. Aproveitei o ócio sem grandes encanações e o que me foi oferecido sem grandes culpas ou dramas morais.
          Como esta mensagem não exige resposta, não lhe pergunto nada. Espero apenas que as coisas também tenham dado mais ou menos certo para você e que também esteja pedalando. Se um pedido de desculpa, seja ele por qualquer motivo, lhe fizer bem, pode ficar com este. Sei que, às vezes, mesmo sem querer, podemos ser bem cretinos. Espero sinceramente não ter sido um desses cretinos que existem aos montes. Mas, caso esteja dentro desta classificação, tudo bem”

 

Agora, que estamos em alto mar digital, coloco minha mensagem dentro deste texto e entrego minha garrafa às águas digitais. Que a maré seja boa e, caso esta garrafa não chegue ao seu destinatário, que ela encontre ao menos o leitor certo: aquele que se esqueceu ou foi esquecido por alguém. Ou seja, um leitor muito comum, assim como eu e você. 

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