Feminismo para mal intencionados

Quinze anos atrás, argumentos rasos seriam perdoados. Hoje, temos a internet com seus milhões de sites, páginas do Facebook e grupos de discussão. Cada vez mais, debatemos assuntos antes vistos como obscuros. E por debater cada vez mais, cada vez menos os argumentos preguiçosos são aceitos, menos ainda quando o argumentador se dispõe a levantar um debate sério.

O feminismo, por exemplo. Cada vez mais se fala sobre. E como se fala, surgem as reações ao desconhecido: “pra que isso?”, “ninguém precisa”, “é coisa de mal comida”. E com a reação, explicamos. Apontamos fatos, trazemos dados que mostram que é necessário, sim, um movimento para garantir às mulheres direitos, respeito e qualidade de vida.

Então, surgem os argumentos preguiçosos, exaustivamente rebatidos um a um. Não queremos serviço militar obrigatório para ninguém, e se você, homem, também não concorda com a obrigatoriedade, organize-se e lute contra. Feminismo não é somente sobre deixar os pelos do corpo crescerem, embora o debate passe por isso. Não queremos mais poder que os homens, queremos respeito. Por aí vai.

Outro dia um vlogueiro pregava contra o feminismo. O argumento era que homens são vítimas de mortes violentas em maior número. Em um minuto de reflexão, a falácia é desmascarada: homens morrem sim, mas quem os mata? Homens são vítimas da violência masculina. Mulheres também. Homens são vítimas por inúmeros motivos: latrocínio, brigas, acertos de contas. Mulheres, muitas vezes por serem mulheres. Objeto de posse. Sabe aquela história: “se não é minha não vai ser de mais ninguém”? Então. Isso não é amor.

Mulheres estão sujeitas às mesmas violências que homens e também à violência de gênero. Somos vítimas duas vezes: da violência diária e da violência guardada especialmente para nós. Não é vitimismo, é fato. Eu explico quantas vezes for necessário, mas é preciso boa vontade por parte do interlocutor para compreender. Sem argumentações falaciosas, sem falta de caráter e com certa disposição para reconhecer seus privilégios. Senão, debatemos e morremos na praia. O fato de homens serem mortos violentamente em maior número do que mulheres não anula a necessidade de um movimento que proteja o sexo feminino contra a violência somente a ele destinada.

É verdade que compreender a realidade do universo feminino quando não se vive nele é difícil. Para sensibilizar amigos, eu tive que contar, por exemplo, que quando tinha 17 anos um rapaz me seguiu até a frente da minha casa, me segurou pelos pulsos e tentou me beijar a força. Fiquei com os braços marcados pelas mãos dele. Acontece todo dia, as vezes mais grave. Quem não sente na pele, não sabe. Até hoje, quando caminho sozinha à noite deixo um amigo de sobreaviso: chegando em casa te ligo para falar que cheguei bem.

Quem não vive nas periferias, por exemplo, talvez tenda a acreditar que os dramas femininos se resumem à manter o equilíbrio em cima do salto alto enquanto buscamos alguém para trocar nosso pneu. É tentadora a ideia de que os homens sofrem mais do que nós porque deles é cobrada a força, a virilidade e o sustento da casa. Simplifica muito o problema, nos alivia de pensar nas dores diárias. Tira o peso de refletir que mulheres ainda são menos inseridas no mercado de trabalho, que ainda existem homens que não permitem que a companheira trabalhe, que mulheres têm salários menores do que o dos homens para exercer a mesma função e que muitas mulheres que trabalham e têm família não podem contar com a ajuda do marido para os serviços domésticos.

Se você é um senhor, professor universitário e colunista num relevante jornal do interior, talvez se encontre numa posição social confortável, onde algumas mulheres ao redor conquistaram bons empregos. Talvez uma ou outra não saiba trocar um pneu, e um ou outro homem se sinta oprimido por essa nova realidade de mulheres financeira e emocionalmente independentes. Mas se você é um senhor – ou jovem – colunista que se propõe a opinar sobre a realidade masculina por meio da banalização da luta feminina, é importante compreender que as pautas do feminismo vão além. A internet está aí para trazer um mundo de informações. As mulheres também estão aqui e ali em carne e osso para contar o quão difícil é alcançar o sucesso profissional e ter que abrir mão da vida familiar, por exemplo, porque não damos conta sozinhas do lar e do trabalho. Acontece em muitas casas. Longe dos olhos dos vizinhos, acontece a violência verbal, psicológica e financeira, e quem duvida pode passar numa Delegacia da Mulher e dar uma olhada nos casos registrados.

Se os homens se sentem presos ao estereótipo masculino, não foram as mulheres que os colocaram nessa prisão. Não somos nós que questionamos a masculinidade de homens que assumem os serviços de casa. Quem criou e mantém um sistema que vê como ofensa um homem abrir mão da sua masculinidade (ou vai dizer que você não diz “ô, viadinho”com a intenção de ofender o seu amigo?) não foram as mulheres, muito menos o feminismo. Se o padrão de masculinidade é nocivo aos homens, saiba que nós também o repudiamos. A ideia de masculinidade e virilidade é nociva inclusive à saúde.  Há quem se negue, por exemplo, a fazer exame de próstata porque a bunda do macho é sagrada e lá ninguém toca, senão é viado, e ninguém quer ser viado ou “mulherzinha”. Talvez por isso, homens vivam menos do que mulheres, e não por conta de sistemas naturais que colocam o sexo masculino como menos saudável.

Então, se você é um vlogueiro que diz que o feminismo é desnecessário porque homens também são vítimas de violência, você está sendo desonesto. Os homens que você cita nas estatísticas dos assassinatos são vítimas de uma sociedade desigual e violenta. As mulheres estupradas, agredidas e mortas são vítimas de uma cultura que nos coloca como objeto; que tira a nossa humanidade e faz com que um rapaz entenda que, por mais que eu tenha falado três “nãos” para ele, ele poderia me seguir até a minha casa e me segurar a força. Se você é um senhor, comunicador, professor universitário localmente influente, precisa ter honestidade para escrever sobre os privilégios femininos. Sair das generalizações e ouvir as mulheres ao redor. Ir mais longe, e ver que o drama das mulheres das periferias começa na falta de creche para as crianças e vai até o espancamento.

É preciso ter honestidade e visão ampla, porque enquanto debatíamos um texto que alegava que os grandes sofredores da nossa sociedade são os homens – que sofrem por não poder chorar em público, dizia o autor – uma moça de 16 anos foi estuprada por 30 homens. Pra nós, o choro é sempre permitido, e às vezes não temos outra opção.

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Sobre o texto que eu cito acima, aqui

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