Com o coração no bolso

Era 23 de julho de 2011. Eram quase 4 horas de viagem, pouco menos de 400 quilômetros. Na janela, o mundo parecia pequeno e veloz. Chegar perto do destino era um alvoroço coletivo no ônibus.

– Me pega na Barra Funda? – disse por mensagem de texto.

São Paulo, pelo menos para quem vem de fora, estava cumprindo o seu papel. Com todos os clichês: chuva, trânsito, sujeira. Suas ruas apressadas corriam, iludidas em serem mais velozes que os relógios que insistem em disciplinar o tempo.

– Tá chegando?

– Cheguei.

– Você não acredita quem morreu? A Amy Winehouse.

E São Paulo ia abraçando a noite, com fome e garoa. Em todas as rádios, ou pelo menos nas que eram sintonizados no carro em que eu estava, Amy Winehouse esquecia morte e cantava. “Tanto talento perdido para as drogas”, dizia um locutor. “Ela não soube lidar com a fama”, diagnosticavam em outra estação. “Pobre menina, só queria um amor”, finalizava outro.

Depois de alguns anos sendo alvo de piadas, em escala mundial, parecia que aquele era o fim. Talvez, no silenciar da pulsação, ela poderia enfim ser só aquela satisfação que mora na emissão vocal. Não, o mundo não seria mais ruim. Os homens seriam antes de tudo homens. A fama não importaria. As drogas não precisariam mais descerem pelas veias, sempre com unhas afiadas, prontas para rasgar a carne fina enquanto gargalhavam da dor.

Ela não precisaria mais se descontrolar. Alimentar a alegria e a tristeza com mais alguma dose, seja lá do que fosse. Teria fim aquele andar cambaleante com o olhar perdido e o coração na mão. E a gente já tinha se acostumado a vê-la assim. Andando pela cidade da hipocrisia usando o coração como tinta. Esfregando-o nos muros.

– Ela morreu, a gente precisa sair pra beber alguma coisa, aumenta o som. Eu amo esta música.

O som alto não escondia o grito com a cabeça para fora da janela: “AMY”. Nas mesas dos bares, talvez da Augusta, o poste iluminava os copos de cerveja. As bitucas voam das mãos como meteoros.

– Me conta como tem vivido?

Tava tudo mais ou menos, pra todo mundo. Bastava olhar ao redor. Ou talvez, era assim que queríamos ver o mundo naqueles tempos.

– Até pra Amy, que tinha tudo e acabou assim.

Pode ser. E os copos pareciam dizer: mas faz de conta, pelo menos hoje, pelo menos em homenagem, que a gente não precisa ser mais triste. E gente pode só cantar. Igual naquela música dela, pesadíssima, podemos falar de problemas mil, que não queremos rehab nenhuma, com uma melodia de fundo feita pra dançar. Vamos esquecer a ressaca, ou as ressacas. Vamos cantar mais uma, aquela lá. Vai que nesta loucura, talvez, exista um amor bom para todo mundo.

– Já são sete horas, você tem que pegar o ônibus na paulista.

– Tá vou esperar aqui, acho que umas 8 horas estou em casa.

É assim para todo mundo. Com Amy ou sem Amy os ônibus rodariam por todas as cidades, abririam suas portas, pessoas subiriam e desceriam; uns mais felizes, outros mais tristes, sempre com cara de sono, nas primeiras luzes do dia. Pensei que talvez Amy estivesse se perdido. E, para ela, se perder não tinha perdão. Ou, talvez, ela sempre estivesse perdida. Então tudo estaria perdoado. E, me olhando no reflexo da janela do ônibus, eu também me via um pouco perdido. Os caminhos não fazendo sentido. E fui aceitando: estava mesmo perdido. Acho que dormi.  Perdi o ponto de descer.

– Já ficou bem pra trás. Você vai ter que descer no próximo ponto e pegar outro ônibus – disse o motorista.

E, no despertar das bancas de revistas, Amy estava em todos os jornais, rindo. Esquecendo que do lado do seu rosto estavam as datas de seu nascimento e morte.  Talvez ela também tivesse perdido o ponto e descido bem antes da parada final. Talvez, agora, ela pudesse pegar o ônibus certo, ir para sempre embora da cidade da hipocrisia, escolher uma poltrona na janela e dormir com o coração no bolso, longe dos muros.

Saiba mais sobre o autor: ” Músico frustrado, mesmo sem tocar nenhum instrumento, me especializei em ser espectador e ouvinte. Por conta disso, estou sempre à espera de uma nova história: vivida, contada, vista ou lida. Leitor de embalagens de comestíveis à Bíblia Sagrada, passando por literatura infantil. Ouço com atenção, por horas, a mesma música. Acho que nasci na Bahia, embora a certidão negue. (…)”

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