Aos mestres, com carinho e solidariedade

 

Estudei da 1ª série ao 3º colegial em uma escola estadual de Avaré, no interior de São Paulo. Professores mal pagos, estrutura ruim, falta de dinheiro pra reformar carteiras ou qualquer coisa que precisasse. Todo ano havia uma festa junina em que pessoas e comerciantes doavam coisas para serem prêmio do bingo ou para umas caixas surpresa que o pessoal podia comprar. Era necessário arrecadar dinheiro pra manter a escola, já nos anos 80 e 90 a verba pública não era suficiente. Mesmo assim era uma das escolas públicas em melhor situação na cidade. Lá tive professores com quem aprendi muito e alguns nem tanto, mas esses geralmente por falta de interesse meu na matéria. A maioria absoluta era de pessoas muito dedicadas, tanto que tempos depois alguns deles ainda lembram meu nome.

Eu nunca havia pensado nisso, mas perto dos 35 anos e tendo saído da escola há quase 17, percebo que toda vez que vejo um deles me ocorre um sentimento de respeito, de certa devoção. É como se aquela pessoa, tenha eu gostado da matéria que ela ensinou ou não, merecesse uma deferência maior do que o cara da padaria ou o vizinho da esquina de baixo, do que pessoas “comuns”. E não porque pessoas comuns não mereçam respeito, mas porque cresci vendo O professor como uma figura um pouco sagrada. Na minha casa a pior reclamação que poderia vir da escola sobre mim não era conversar na aula ou ter ido mal numa prova, seria ter desrespeitado alguma professora. Além disso, minha mãe é professora e até hoje, mesmo longe, vejo a dedicação dela, sempre procurando coisas novas, material que ajude os alunos do Ensino de Jovens e Adultos, do qual ela é professora coordenadora.
Por tudo isso, e também porque sou humano e não tenho sangue de barata, quando vejo o que foi feito em Curitiba na última quarta-feira, professores apanhando, levando tiro de bala de borracha e tendo de correr de cachorro e de bomba, sou tomado por uma mistura de revolta e tristeza, uma sensação de impotência e desesperança, um desânimo com nossa sociedade. Em qualquer lugar civilizado, professor apanhando seria motivo de greve geral, razão pra parar o país. Nos últimos 2 meses tivemos duas manifestações em que uma das bandeiras era pedir por educação de qualidade. Os professores estão lá fazendo a parte deles, uma das reivindicações é ter melhores condições de trabalho e ensino, eles não estão só pensando no salário, que sim, é uma merda, ainda mais para uma profissão de tamanha importância. Mas e aí, o que nós vamos fazer? Será que quem tem filho em escola particular não está nem aí? Será que nosso umbiguismo chegou a esse ponto? A herança de um país com educação ruim vem para todos, é sempre bom salientar.
Este texto, mais do que qualquer coisa, é antes um desabafo. Ontem foi um dia triste, um dia em que pessoas que escolheram algo que é mais uma missão do que uma profissão, foram tratadas feito lixo pelo governo de um estado. Ah, se você acha que quem estava ali é vagabundo e ou coisa parecida, tente imaginar algum parente ou a mãe ou pai de algum amigo seu que seja professor apanhando e tomando bala de borracha. Se mesmo assim você permanecer indiferente ao que aconteceu, talvez você nem devesse estar lendo isso, você é um caso perdido de falta de empatia e humanidade.

Policemen fire rubber bullets and tear gas against teachers during a protest in Curitiba in Parana state April 29, 2015. According to local media, more than 100 people are reported injured as police used tear gas and rubber bullets to break up protests led by teachers who are demanding for better pay in the southern Brazilian state of Parana. REUTERS/Joka Madruga

Policemen fire rubber bullets and tear gas against teachers during a protest in Curitiba in Parana state April 29, 2015. According to local media, more than 100 people are reported injured as police used tear gas and rubber bullets to break up protests led by teachers who are demanding for better pay in the southern Brazilian state of Parana. REUTERS/Joka Madruga

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