Trilha sonora para quando o mundo cair

“Se a gente repete as coisas, mesmo aquelas que pertencem a nossa própria fé ou a nossa própria esperança, as coisas começam a morrer. E como. Então, já não é preciso dizer sempre as próprias coisas, ainda que elas sejam tão importantes”. Ela disse isso num programa da TV Cultura, em 1975, num ano em que eu nem era nascido. Em sua biografia, escrita por Lira Neto, os bastidores da gravação do especial: era para ser mais um “Ensaio”, programa tradicional da emissora, mas Maysa chegou em outro patamar, como sempre. Sob efeitos da bebida, ela quis beber mais. Falou dela com uma sinceridade crua. Cantou e se cantou em suas músicas, todas sempre tão dela, mesmo que escritas por outras e outros. Mordendo as frases de ‘Ne me quitte pas’ como só ela soube fazer. E, hoje, burramente, dizemos que a bebida estragou aquela mulher com todo seu talento. Não. Feche os olhos da hipocrisia. Ou melhor, tire a sua hipocrisia da sala. Nós, eu e você, bebemos e vamos dormir, mais ou menos felizes ou mais ou menos tristes. Nos arrependemos da declaração de amor sufocada, do beijo não dado, da ‘revelação’ que fizemos ou escondemos. Nos arrependemos de nós mesmos. Depois, acordamos de ressaca e temos um mundo de tijolos mais ou menos sem sentido para administrarmos. Ela não. Ela não se estragou. Se jogou. Antes de beber, ela era música. E junto com a música não havia arrependimentos. Já que escreveu letras e tocou melodias para remediar um mundo de coisas impossíveis. Foi a trilha sonora de romances precipitados e impossíveis. Era aquela música que tocava, e ainda toca, no lado da vida em que estamos todos sós, mesmo depois do encontro. Tão sozinhos que esperamos que alguém chegue e nos pegue pela mão. Alguém que nos olhe nos olhos e cante um samba-canção, daqueles que só Maysa teria a ousadia de cantar. “O amor é também, muitas vezes, uma espécie de estado sentimental. Extremamente descarnizado, puramente espiritual. É por isso, então, que eu evito a palavra amor”, ela diz isso, lá pelas tantas, na antiga gravação. Ela sabia dos encontros e desencontros a que estamos sujeitos. Quer uma prova? Ouça os discos: você espera um silêncio e ela grita; você espera um rasgo de coração, mas a voz dela se faz trêmula, frágil e dolorida. Depois disso, o resto, para os insensíveis, pode ser cumprir horários, padrões e ler o texto da vida social, ou seja: serem comedidos, reduzir a ingestão de sal, ter hábitos saudáveis e prolongar os dias, confundido quantidade com qualidade. Já ela (e sua voz) estará sempre em abraçar o amor (da vez) sem conseguir tirar o olhar da velha solidão, que está logo ali no fundo do salão: observando tudo, com um copo na mão e um olhar de certezas. E Maysa sabe que, mais hora menos hora, terá que abraçar esta solidão. Maysa está nesta troca de olhares, mesmo que por alguns momentos – por medo, talvez – ela também tenha que desviar o olhar, como nós também o fazemos. Quem sabe se no meio da noite da vida – ou seria dia? – as duas, Maysa e a solidão, não dancem um samba-canção. Juntas, cúmplices, apaziguadas. Mas que dancem apenas uma música, por favor. Logo virá outro parceiro. Maysa tinha a música, os amores e também a consciência. Lá no meio deste mesmo programa, o entrevistador lhe pergunta: “e hoje qual seria a forma de não ser?”. Ela responde: “Se assumir. Hoje em dia a coisa mais fácil do mundo é não ser. Cê foge, cê passa a vida inteira, fugindo de uma necessidade de ser. Então é mais fácil não ser. A gente usa as palavras idiotamente, imbecilmente… Cê já pensou não falar?”. E faz tanto tempo que ela disse isso; a gravação é de 75, não esqueçamos. No entanto, faz tanto tempo que isso é verdade. Ela gravou seu primeiro disco ainda na década de 50 e no último dia 22 de janeiro sua morte completou 38 anos. Em vida, ela se assumiu e foi. E tudo o que ela disse e cantou ficou no passado. Tudo faz muito tempo. Mas, todos os seus avisos ainda são mais do que necessários para nós, já que ainda hoje não temos a coragem do amor e muito menos da solidão. Até quando? Cante pra gente, Maysa, nos ensine… Cante, enquanto imaginamos seu par de olhos, que foram descritos pelo poeta como dois oceanos não pacíficos… Em um outro especial de televisão antigo o ator Ney Latorraca fala que você é só dois olhos e uma boca e lhe manda um beijo. Eu, depois de tanto tempo, também lhe mando: um beijo beijo pra ti, Maysa.

maysa

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