Tiros, carícias e bombas na sala de jantar

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O sangue escorre sobre o asfalto. O corpo está coberto por um plástico negro. À frente, o repórter dá os detalhes: homem rouba farmácia, foge, entra em conflito com a polícia, atira, é baleado e morre. É mais uma morte enviada aos satélites e que chega em nossas casas praticamente ao vivo, perto das cinco horas da tarde. Essa transmissão foi por esses dias, mas há anos ocorre e sempre terá espaço na programação de qualquer suporte midiático. Há tempos, mortes, por mais violentas que sejam, se tornaram ‘naturais’, têm fácil ‘digestão’, mesmo no período da tarde – entre o almoço e o jantar.

A violência nossa de cada dia é real. Mas, como sempre necessitamos de ficção, a oferta é grande e variada. Das ruas para as telas, há violências para todos os gostos e estilos: familiares, ‘do além’, futuristas, políticas, sexistas, lúdicas, tristes…Sirva-se à vontade. No final, entre tantos tiros, porradas e bombas, o espaço para outro tipo de emoção (ou ação) torna-se limitado. E, entre tantos mortos e feridos, o que fazemos? Encontramos tempo (leia-se disposição) para debater se a novela das oito pode exibir um beijo gay. Caso isolado?

(…) Em alguns locais, antes da sessão, o público era advertido sobre as cenas de amor que viriam e os que, mesmo depois de tomar conhecimento disso, decidiam ver o filme tinham a palavra ‘Avisado’ carimbada em seus convites.

Não e 2014 foi pródigo em exemplos. Fita 1: Azul é a cor mais quente”. Seu ‘pecado’: abrir espaço para o afeto nu e cru. Causou furor o sexo quente feito em todas as cores e por longos minutos pelas moças francesas. Não deu outra, “Filme das sapatões”, foi o título que ganhou por aqui. Fita 2: “Praia do futuro”, o sensível filme de Karim Aïnouz, que também deu as caras (e os corpos) nas telas deste ano. A heresia: colocar Wagner Moura entre abraços e carinhos com outro homem. Pouco? O bastante para expectadores abandonarem a sala de exibição no meio do filme. E, em pleno 2014, não custa lembrar, voltamos a usar carimbos. Em alguns locais, antes da sessão, o público era advertido sobre as cenas de amor que viriam e os que, mesmo depois de tomar conhecimento disso, decidiam ver o filme tinham a palavra ‘Avisado’ carimbada em seus convites. Ou seja: não diga que eu não te avisei, não venha bancar o ofendido.

E é preciso aviso contra ‘ofensas’ desta natureza? Pelo contexto não fechamos uma resposta, mas chegamos a outros questionamentos. Moura, além de ser um dos principais atores em atividade, é para muitos, como é de esperar, a cara do Capitão Nascimento, o ‘herói torto’ de nossos tempos não menos tortos. O personagem ilustra uma força que, por vezes, também recai na brutalidade, misturando diversos conceitos – como coragem, autoridade, masculinidade e etc. Mexer neste símbolo revelou a coragem dos que participaram/produziram ‘Praia do Futuro’ e, por tabela, também trouxe à luz a forma com que lidamos com a violência e a sexualidade; onde a primeira sempre sai na frente, basta reparar como convivemos de maneira pacífica com ela – e colocar numa mesma frase estas duas palavras opostas, ‘violência’ e ‘pacífica’, também já revela muito de nós.

A violência, real ou ficcional, não é a última grande novidade da nossa época. E a discussão aqui não é sobre os controles de classificação etária do que é veiculado. Sabemos que esta classificação existe para evitar a banalização de conteúdos impróprios; no entanto, é fácil constatar o quanto este método é muito mais permissivo com a violência do que com o sexo. Bastar dar uma zapeada, a digestão vísceras é feita sem grandes sobressaltos.A discussão aqui é sobre possíveis representações e reflexos dessa naturalidade.

Muitas vezes a violência é entendida como manifestação da força. Ela se concretiza com a ‘aniquilação’ do outro, que deve estar em desvantagem. E sabemos o quanto a ‘força’ por si só é capaz de gerar identificação.Quando Chuck Norris, nos filmes, sozinho mata uns 50 inimigos e sobrevive pra contar história é isto que está sendo encenado. Filmes ditos de ação, numa ótica normativa, são para homens e os de romance/drama, para mulheres. Esse discurso, no mínimo preconceituoso, é socialmente aceito e largamente reproduzido, já que é corroborado por muitos e muitas que consideram um ‘atestado’ de ‘força’ o fato de suportarem a exposição à violência.Nesta briga, também temos nossa culpa.

Sendo assim, no campo oposto, temos facilmente a afetividade catalogada como fraqueza; creio que, em grande parte, pela condição dela só se concretizar com a efetiva participação do outro – e não na ‘derrota’ do outro. E esta dependência mostra que não estamos completos, portanto, revela uma certa fragilidade. Se na violência, sou eu contra o outro; na afetividade, sou eu com o outro. E ver (e se ver) precisando deste outro nunca é tão simples e facilmente é entendido como o oposto do conceito de ‘força’.

E, como afeto anda de mão dada com a sexualidade, a coisa só tende a se complicar. Não há tolerância (oficial, via classificação etária, e individual) para nudez e cenas (mais ou menos explicitas) de sexo. Quem não se lembra de, quando criança, estar vendo televisão com os pais e ter de fechar os olhos quando um par de seios passava faceiro pelas telas, isso quando não se mudava de canal. No entanto, se a reportagem era sobre a jovem que matou os pais ou o pai que matou a filha, com direito a reconstituição da cena do crime, a união da família fazia a audiência. Um situação familiar, não?

Isso quer dizer que tendemos a sermos mais violentos do que afetuosos? Mesmo sem embasamento científico, creio que não. Por mais que a violência seja tão presente, o exercício concreto dela é feito por poucos. Muitos, em condições normais, não são/seriam capazes de atos violentos. No entanto, consumir violência sacia nossa curiosidade e serve como ponto de fuga. É na ação de terceiros que nos ‘apaziguamos’ com aquilo que não podemos ou não conseguimos realizar – seja por implicações morais, financeiras ou legais – sem nos trazer consequências sérias.

Já no mundo dos afetos e sexualidade, até que se prove o contrário, todos podem fazer tudo – claro que levando em consideração o consensual dentro das responsabilidades. Por isso que a temática, também real ou ficcional, gera desconforto. Ela mexe com o desejo de cada um. E somente a participação do outro pode transformar o desejo em prazer. Ou seja, a velha dependência que nos torna ‘fracos’. “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”, já dizia o velho Nelson. E, como a nossacarne é fraca, é de medo que estamos falando – ou evitando sentir, quando repudiamos na ficção e julgamos no mundo ‘real’ qualquer demonstração de afeto (leia-se prazer).

E, no final das contas, o resumo desta história toda pode ser contado em poucas linhas: é realmente espantoso o quanto (muitas vezes por vontade própria) domesticamos a dor (nossa e dos outros) e encarceramos o prazer (também o nosso e o dos outros). E, depois que passamos a chave, temos a ilusão de este prazer pode ser ‘esquecido’ ou ‘liberto’ apenas no escuro, o que nos deixa ‘livres’ para escolheremos os nossos lugares na sala de jantar para debatermos os últimos crimes. Mas, se tudo depende dos olhos de quem vê, se pergunte (e também pra quem estiver do lado) o que é mais natural para você: o Wagner Moura em cenas de afeto (mesmo que seja com outro homem) ou vestido de Capitão Nascimento asfixiando um rapaz com um saco plástico?

 

Saiba mais sobre o autor: Músico frustrado, mesmo sem tocar nenhum instrumento, me especializei em ser espectador e ouvinte. Por conta disso, estou sempre à espera de uma nova história: vivida, contada, vista ou lida. Leitor de embalagens de comestíveis à Bíblia Sagrada, passando por literatura infantil. Ouço com atenção, por horas, a mesma música. Acho que nasci na Bahia, embora a certidão negue. No dito ‘lado prático’ da vida, marco, há uns quatro anos, o campo de ‘ensino superior completo’ em cadastros e formulários. Nas horas vagas, mas sem desmerecimento, trabalho como jornalista. O pão nosso de cada dia, tiro das coisas que mais gosto de fazer: conversar, observar, conversar e ter a certeza que não há nada mais bonito que um ponto de interrogação.

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