Segue tu, desapego: fique nu(a)

Lineker faz teatro, dança, direção, música, performance, barulho, artes, clipes. O menino de Minas tem um site completo, explicando e conectando tudo isso. Por esses dias, soltou ao vento virtual dos nossos dias o álbum Verão, com seis músicas. As poesias cantadas entraram pela minha janela. Não, não faremos crítica musical, levantemos bandeiras. Este pequeno texto é um abraço e totalmente dedicado ao trânsito do fim da tarde.

Na primeira quinzena de janeiro, nos dias azuis de começo de ano, quando dezembro está tão longe e tão perto que a gente fica confuso, a notinha do jornal me pegou. O texto dizia: a ausência de respostas para basear a existência, fluidez e efemeridade do mundo à nossa volta, temas recorrentes na “pós-modernidade”, tomam corpo na próxima quinta, 21, às 20h, no espetáculo de dança “Eco – Experimento l”.

Fui sozinho pro Teatro Municipal de Bauru. E o teatro também estava sozinho, assim como o artista, meio que ensaiando lá na escuridão do palco. Quando liberaram a entrada do público – eu mais sete pessoas – fomos convidados a sentarmos em bancos posicionados no palco.

Assim ficamos, por uns sete 20 minutos, vendo Lineker dançar e cantar, grunhir, correr, ficar imóvel. Fazia calor. Ele dançava por entre este público (nós). Lembro de conseguir ouvir o trânsito do fim da tarde do lado de fora do teatro. O barulho das buzinas, freadas e do balanço dos ônibus lotados. O peso de vidas acomodadas em veículos.

Quantas satisfações e insatisfações passaram por aquela avenida naquele dia? E a gente ali, sentado num palco de teatro escuro. A platéia vazia. A gente, objeto de cena de uma peça feita de (e para) o ruído, movimento, silêncio e som de respiração.

E por esses dias, depois de um mês, arrasto meu banco para o álbum “Verão”. A voz sem sexo dançou diante de mim e eu gostei. E as frases das canções poderiam ser ditas por mim. Ou poderiam ser automóveis apressados e lentos no trânsito do fim de tarde. À espera do sinal verde. À expectativa de viver, quem sabe, a parte mais feliz do dia ou da vida.

 

Saiba mais sobre o autor: ” Músico frustrado, mesmo sem tocar nenhum instrumento, me especializei em ser espectador e ouvinte. Por conta disso, estou sempre à espera de uma nova história: vivida, contada, vista ou lida. Leitor de embalagens de comestíveis à Bíblia Sagrada, passando por literatura infantil. Ouço com atenção, por horas, a mesma música. Acho que nasci na Bahia, embora a certidão negue. (…)”

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