Qual é a graça do “Aécio comido”?

Romero Jucá bem que tentou. Ainda na escuridão, deve ter sido acordado com um “deu merda, tá tudo na Folha de hoje”. Depois de ler e reler, entre telefonemas, conselhos e mais alguns palavrões, sua mente acuada deve ter ecoado: “como me livrar dessa merda toda?”.

Jucá, há quase um ano, defende o “Fora PT” como solução para toda corrupção. E esse discurso colou. Colou tanto que, além de ser reconhecido como articulador do processo de impeachment, após a consumação do afastamento, o senador teve todo o “seu conhecimento sobre leis orçamentárias” contemplado com o Ministério do Planejamento. Pois bem, esse mesmo Jucá, investigado e que já deixou a esplanada dos ministérios após ter seu nome envolvido em escândalos, deve ter pensado: “Se até agora colou, porque não vai continuar colando?”

E lá foi ele, com o circo armado, cumprir o seu papel em uma entrevista coletiva. E foi bonita e psicodélica a festa. Enquanto o senador falava, a gente se questionava se a loucura estava nele ou em nós . Em toda esquina deste brasilzão, rico em ditados e expressões, qualquer um sabe muito bem o que significa “boi de piranha”. Jucá também sabe. Mas, como revolucionário da interpretação que é, vai além e propõe outro entendimento. Para ele, “boi de piranha” quer dizer “punir os culpados”.

Mas Jucá chegou onde chegou por votos, negociatas e também por interpretações. Ele não é uma ave isolada e rara nas planícies do planalto ou do restante do Brasil. Foi líder de governo com FHC, Lula (quando também tentou ser ministro) e Dilma. E no seu recente exercício de interpretação, ele não está de todo só. A crise no país é política, econômica, jurídica, de representatividade, da democracia e também de interpretação.

No diálogo lido e, posteriormente ouvido, há também um “o Aécio será o primeiro a ser comido”. A frase tem seus contextos. Mas, como também temos nossos dias de Jucá,  para muitos o senador mineiro, a partir de interpretações, teria preferência em uma lista dos que seriam sexualmente ‘comidos’. Partindo disso, temos montagem com as imagens de Aécio e Alexandre Frota, Sensacionalista com “Aécio é visto andando encostado na parede do Senado”, Aécio com corpo de mulher.

E tudo isso é exercício de nosso humor cotidiano, da nossa habilidade suprema de rir e gargalhar enquanto o mundo desmorona. Era para ser engraçado, mas não é. Se questione: há graça (no sentido de piada) em um homem comendo outro homem? Você daria gargalhadas ao ver Aécio Neves sendo comido? As respostas, embora difusas no caldo da sociedade, revelam muitas hipóteses, entre elas: machismo, homofobia e nossa infantilidade ao lidarmos com o sexo.

Piadas como esta elegem como motivo de chacota o homem agente de uma ação (na visão de quem ri) que deveria ser apenas praticada por mulheres: o ato sexual com outro homem. Mas o argumento vai além. O homem possuidor e praticante de feminilidades (no sentido cultural raso) renega sua masculinidade e posição social. O homem, nesta situação, é considerado fraco, ‘menos homem’, uma piada. Nesta linha de raciocínio, a homofobia também se revela por compreensões similares e de opressão. Os gays, vistos como inferiores, também seriam um bom motivo de piada. Nos dois casos, claramente temos o homem como o ideal social, a tradução da evolução da espécie sob duas pernas. Abaixo dele, e só abaixo, temos as mulheres, gays e outras ditas minorias. Nunca ao lado ou no mesmo patamar. E isso (ainda para quem ri) pode ser engraçado.

Além dessas duas leituras, a piada também mostra nossa infantilidade quando falamos sobre sexo. Qualquer insinuação sobre a sexualidade feita para um grupo de crianças e pré-adolescentes é motivo de piadas, risadinhas e cochichos. O desconhecido, neste caso, gera um misto de pudor e curiosidade. Além disso, o jogo de ‘mostra e esconde’, com o sexo exposto e acessível por todos os lados e proibido por todos os discursos, é a equação perfeita que gera o sentimento de medo e vergonha. Diante disso, o discurso sobre sexualidade, nesta fase, é construído por omissões e chacotas, também usadas em muitos casos para segregar. Por medo e preconceito, partimos do riso para a ofensa. E, sem nos darmos conta, começamos a usar os “filho da puta”, “puta”, “viado”, “sapatona”, “arrombado” e etc. para etiquetar de forma clara os que são diferentes de nós, os que são inferiores.

Já com os adultos, depois de terem conhecido e/ou vivenciado o sexo, manter este mesmo comportamento é no mínimo estranho. Ao lidarmos com a sexualidade alheia sob a ótica da galhofa, fazemos a mesma relação dos que agem com intuito de segregar. São vias diferentes, efeitos parecidos. Você condena coisas/ou situações que são (para você): diferentes, reprováveis e inferiores. Ou, você não verá motivo para condenar atitudes que você compreende, aceita e pratica. Se a junção dessas três ações (compreender, aceitar e praticar) ainda assim gerar condenação, estaremos falando de hipocrisia.

Diante disso, ridicularizar Aécio por um argumento sexual é, implicitamente, lhe imputar algo que julgamos ofensivo. Ou seja, lhe punir pela ofensa. O Aécio, do “quem não sabe dos esquemas dele?”, seria punido ao ser comido por outro homem. O riso, neste caso, também revela uma concepção de mundo. E colocar o sexo como punição, mesmo que por meio de piadas, legitima a ideia absurda de que o ato sexual pode ser impingido como corretivo para pessoas que não são como nós, desde que haja justificativas.

Por isso, é tão desconfortável ver este tipo de piada. Enquanto a sexualidade for argumento para desqualificar o outro, estamos apenas contribuindo para a crise de interpretação tão nociva em que estamos mergulhados (lutando para não nos afogar). A sexualidade não deveria ser atributo qualitativo, mas sim exercício da liberdade. Usá-la como argumento é revelar a nossa incapacidade (medo) em lidar com a liberdade. Também torna claro que até mesmo os nossos discursos ‘libertários’, apesar da vocação para o céu, vivem como pássaros engaiolados. O que é triste, muito triste. No fim, o pássaro, acostumado com as grades, começa a ver o vôo alheio como aberração.

 

Contra Bolsonaro e Feleciano, grupo gay faz protesto na Comissão de Cultura da Câmara no último dia 24/05. Foto de Lula Marques

Contra Bolsonaro e Feleciano, grupo gay faz protesto na Comissão de Cultura da Câmara no último dia 24/05. Foto de Lula Marques

 

Saiba mais sobre o autor: ” Músico frustrado, mesmo sem tocar nenhum instrumento, me especializei em ser espectador e ouvinte. Por conta disso, estou sempre à espera de uma nova história: vivida, contada, vista ou lida. Leitor de embalagens de comestíveis à Bíblia Sagrada, passando por literatura infantil. Ouço com atenção, por horas, a mesma música. Acho que nasci na Bahia, embora a certidão negue. (…)”

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