Ouse dizer (ser) o nome

Assucena Assucena, Raquel Virgínia, Rafael Acerbi, Rob Ashtoffen, Carlos Eduardo Samuel, Vitor Coimbra e Danilo Moura. Juntos, no palco, compõem a banda As Bahias e A Cozinha Mineira. Antes das luzes e acordes, são nomes, representações e revelações de uma margem possível. E a sociedade, como um rio, é feita de muitas margens. No ‘entre margens’ estes nomes ganham corpo de significado. Os nomes são o reconhecimento da existência. Sem nomes as margens são invisíveis.

Nesse rio, na margem mais evidente mulheres e homens são definidos por imposição social a partir de marcadores biológicos. João tem um pênis e Joana uma vagina. Está claro. No encaixe dos dois há a certeza do destino.

Raquel e Assucena: legitimação e voz, nos palcos e na vida

Raquel e Assucena: legitimação e voz, nos palcos e na vida

“Não se nasce mulher, se chega a sê-lo”. A célebre frase de Simone de Beauvoir é a síntese crítica ao fato da condição feminina ser entendida (e exercida) no esteio do mundo masculino. Ou seja, a imposição constitui o sentimento de pertencimento dentro de um grupo. Com essa imposição cultural, chegamos à outra margem. Mas, já podemos nos olhar por fora das representações.

A condição feminina ideal é construída. Em nome dela, como muitas sabem, direitos (concretos e simbólicos) são negados até hoje. O que é sintomático de como a leitura social de gênero deixa a autonomia e liberdade nas entrelinhas e acolhe (propaga) esquemas frágeis e simplistas para ‘não-explicar’ (não aceitar) a diversidade.

Se o exterior revela uma imposição social, ele também pode não revelar uma condição interior. Esta “não-revelação”, em grande medida, é feita por uma visão de mundo heteronormativo; portanto seletiva. E, por essa visão, o espaço concedido para a homossexualidade também segue preceitos: “Eu aceito meus amigos gays, são pessoas comuns como eu, olhando nem parecem que são gays”.

Inconscientemente, nesse discurso, temos a linha clara do que pode ser aceito: o gay que não ameaça uma concepção de mundo feita de homens e mulheres exterior. A tradução: exerça e deixe sua sexualidade entre quatro paredes, depois venham fazer a travessia do rio conosco. Ou: não venha nos constranger com o seu comportamento desviante. Quer comprovar a validade desse discurso, olhe a sua volta: qual é o lugar que os travestis ocupam no seu cotidiano? Voltando para casa, em que lugares você cruza com eles?

E isso também é imposição. Mas, estudos culturais e de gênero, desenvolvido nos EUA a partir da década de 1950, começaram a formular leituras sobre o fato de que não necessariamente o gênero é ditado por marcadores biológicos. Há uma dissociação entre gênero e sexualidade, sendo gênero, notadamente compreendido como uma “ficção”, a senha para integração social, via preceitos mais de exclusão do que inclusão.

Ao compreender isso, entendemos que João pode ser Joana e vice-versa. Raquel e Assucena escolheram seus nomes. São mulheres trans. Estão, depende do ponto de vista, em outra margem do rio. Como elas, existem muitos e muitas. Pessoas que rompem a barreira do “não pertencimento” e fazem da insegurança a sua força. No entanto, a invisibilidade mata, talvez através do pior tipo de morte, aquela que não é pranteada. Não há lágrimas para o que não tem nome.

Mas há uma margem possível onde a desconstrução de gênero não é assimilada no sentido de ser anulada ou integrada. Ela é o ponto de partida. A Teoria Queer está entre os estudos sociais e culturais que tentam dar conta desta visão, que também é política, do exercício da sexualidade e gênero. Com ela, há espaço de reivindicações de feminilidades e masculinidades fora do padrão normativo. Nesta leitura, temos a diferença que não precisa ser integrada, ou aceita. A diferença se constitui e ganha corpo de ação na própria diferença. É a constituição de um lugar para abrigar o “não-lugar”, onde muitas vezes são relegados ao esquecimento, chacotas e violência os transgêneros, travestis, intersexuais e toda sexualidade que “se desvie”. Ou seja, é a visibilidade de uma margem do rio até então invisível.

Usar metáforas sempre é perigoso. Ao falar de margens de rio, falamos de travessias, pontos de encontro e isolamento. O rio, dentro desse texto, é entendido como o ponto que une todas as marginalidades. Não importa qual é a margem que se ocupa, o rio sempre será a visão comum. Já o centro é fluído e transitório; estar nele é fincar bandeiras no superficial.

E muitos saem da margem onde apenas Joãos e Joanas são permitidos e buscam esse centro. Impondo a margem sobre rio. A opinião sobre o conceito de sociedade fragmentada. Foi isso o que fez Ana Paula Valadão ao questionar a campanha da C&A. No comercial, homens e mulheres podiam escolher roupas desconsiderando o gênero social imposto, as roupas seriam unissex. Ana Paula parte disso: homens e mulheres são constituídos por roupas, não por autonomia de escolhas. O mundo de Ana Paula desconsidera as margens (ou quer impor a sua margem como a única possível). O mundo de Ana Paula é feito e exercido na ilusão da superfície. O fato dela se manifestar sobre a escolha de roupas é sintomático disso e também revela a sua insegurança e incapacidade de lidar com mergulho na profundidade.

A opinião dela é apenas sinal de uma pop star gospel em busca de atenção, movimentos desesperados para não se afogar na complexidade do mundo? Não. Assucena e Raquel são a prova e superação disso. Em suas próprias palavras, elas produzem linguagem e ocupam espaços, na universidade e nos palcos. E nesses espaços elas reivindicam a feminilidade natural de ser diferente. Com isso, elas também fazem a travessia do rio. Não para ocupar o centro da superfície, mas para sair da invisibilidade que aniquila e torna a individualidade impossível.

Neste movimento, o barco não busca o centro, mas fluir entre margens, transitando na água (sociedade), mergulhando. As duas sabem que ter um nome e produzir um discurso é a tábua da salvação, negada a muitas e muitos, que por não serem nomeados, não são dignos de nenhuma margem e acabam por se afogar no rio excludente da sociedade.

Por isso, o balanço desse barco e o ímpeto desses mergulhos não se justificam apenas pela beleza. Mas, antes disso, é luta. Luta por autonomia, reconhecimento e, sobretudo, liberdade. Recentemente, As Bahias e Cozinha Mineira fizeram um show em Bauru. No palco, mais do que música e dança, o que se viu e ouviu foi um grito por direitos. E este grito ainda se faz necessário. Este grito ecoa e tem o poder de balançar a falsa placidez das águas da sociedade, agora pretensamente no ritmo da “ordem e progresso” de Temer.

É preciso estar atento. Enquanto Ana Paula Valadão exerce a sua “santa indignação” sendo “bela, recatada e do lar” e propondo boicotes, ela é apenas superfície, a parte visível. Em profundidade, até mesmo por meio institucional, há figuras ainda mais nocivas. Pessoas que insistem (por medo, insegurança?) que apenas a margem em que habitam é possível. Pessoas que negam o rio.

Se antes tínhamos um Eduardo Cunha, com todo o seu discurso e o “dia do orgulho hetero”, hoje cresce a articulação de um discurso claramente excludente. Prova disso é movimentação de um grupo de deputados (composto PSDB, DEM, PSB, PSC, PV, PR, PRB, PROS, PTN e PHS) que pede o revogação do decreto que permite o uso nome social em serviços públicos (que só passou a ser Lei em abril desse ano!).

Um nome não é apenas uma palavra, é uma forma de inserção capaz de gerar autonomia. É o apaziguamento do interior com o exterior. É um ato político. Assucena e Raquel sabem disso. Os deputados também. E, por saberem, se empenham em não permitir que a identidade de muitos e muitas se manifeste. Eles querem que individualidade se cale e, se calando, desapareça. Sabe-se que um dos mecanismos da segregação é não dar nome ao que precisa ser mantido na invisibilidade. Quando algo é nomeado, ele é reconhecido em sua existência, concorde-se ou não com o que representa. Ao retirar o direito ao nome, identidades que ousam assumir a sua diferença, aos poucos, deixam de “existir”.

Por isso, Assucena e Raquel, por favor, cantem, cantem alto.

Saiba mais sobre o autor: ” Músico frustrado, mesmo sem tocar nenhum instrumento, me especializei em ser espectador e ouvinte. Por conta disso, estou sempre à espera de uma nova história: vivida, contada, vista ou lida. Leitor de embalagens de comestíveis à Bíblia Sagrada, passando por literatura infantil. Ouço com atenção, por horas, a mesma música. Acho que nasci na Bahia, embora a certidão negue. (…)”

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