Conversa no intervalo

Sempre excitados. Assim deveremos chegar. Com as ditas partes do corpo e do espírito irrigadas, umedecidas, prontas para o uso e contato. Desculpe os termos, é disso mesmo que estamos falando. Os dias foram assim. Ou deveriam. Ou serão a partir de hoje. Para mim e para você. Não podemos mais fingir satisfações e dar ‘obrigado’ com sorrisos que não querem dizer nada, mas que escondem um mal secreto – aquele mal descrito Waly e alardeado por Gal, sempre linda e louca. Há lei agora: paremos de fingir que não é com a gente, quando, de fato, tudo é com a gente ou tudo é da gente.

Queremos discussões, reuniões, comissões, avaliações e aporrinhações gerais que realmente valham à pena. Valham-nos todas as penas. Ou, quando muito, nos movam.

Hoje pode ser o dia (amanhã também poderá ser) e não queremos forçar o sono enquanto a noite é de estrelas. Queremos um livro bom, um papo bom, um amigo bom, uma foda boa, uma dor boa, uma magoa boa, um recomeço bom. E, ao final de tudo, um travesseiro macio.

Não queremos defender a esquerda, nem atacar a direita. Queremos um pouco de honestidade e comida. O fundamental é ter o que comer. Comendo, a gente estuda. E, estudando, saberemos discriminar o que é certo e errado para nós e para o país. Só para estas instâncias. O vizinho que se ocupe dele próprio e também descubra o que é certo e errado para ele. Por Deus. Sempre haverá Santa Luzia, que dá luz ao cego, assim como bengala branca.

Queremos discussões, reuniões, comissões, avaliações e aporrinhações gerais que realmente valham à pena. Valham-nos todas as penas. Ou, quando muito, nos movam. Esta pode ser a grande novidade do ano.

E que tudo aquilo que for dar em nada fique em seu local de origem: ou seja, sendo nada. Não nos venham com termos, cerimonial, sinal de saída e cantinho da disciplina. A linguagem foi rasgada e já sabemos quem é o filho feio e louco que ficou só. Agora cada um que se entenda com seus próprios astrolábios, signos, símbolos e sinais. A festa começou.

Não estamos interessados em saber quem sabe mais; mas, naquele que ensina mais. O que ensina coisas da maior importância; coisas como aquecer os pés em dias de frio, combinar sabores de chás, não fazer as escolhas erradas que não causam dor na hora – mas que martelarão na parede da memória por anos. Esperamos o professor que nos ensine a não negar a vida.

E ele há de chegar, com ensinamentos silenciosos e insignificantes e precisos. E lhe perguntaremos sobre o que fazer com tudo que está no ar e que todos fingem não ver. E ele nos deixará falar, falar, falar… Até que nossas frases sejam apenas reproduções de idéias loucas e férteis.

Então, ele nos iniciará na lucidez. E falará da importância da clareza e roupas limpas para que nossa inocência não morra no mar de ‘curtidas’, ‘likes’, abraços digitais protocolares e beijos com gosto de fibra ótica.

Não! Agora é fundamental que a gente se reconheça no cheiro da noite ou na cor da manhã ou no gosto do fruto. Que a gente se reconheça no nosso cheiro. E, por precaução, que tenhamos sempre nos bolsos o nosso mapa original – sem desespero, nem culpa. Seguiremos a nossa rota de origem, com a certeza de pedra jogada no rio que sabe o caminho mais curto e das flores que se abrem para o sol. Tudo isso o professor nos dirá.

Quando as aulas avançarem e a matéria estiver na mesa, deveremos estar excitados. Será fundamental. Empolgação e vertigem pela vida (e na vida), ele pedirá. Então virá o decreto: a vida não merece uma foda de fim de noite, sem vontade, entorpecida, apressada. Ela não merece nosso olhar vazio, blasé – o atestado, com firma reconhecida, de nossa inteligência burra e desnecessária. A vida, ela não merece nossa higiene social. Nem nossa falta de apetite (ou falsa satisfação).

Estaremos então, nós e a vida, na mesma festa em que Deus se diverte na cabine de som tocando músicas loucas e proféticas. Singing our lives with His words. Killing us softly with His song. Só no ouvir e dançar já teremos a certeza. Não poderemos mais simplesmente nos cruzar com cara de ‘bom te ver’. Ou pior, com cara de ‘menina quanto tempo, anda sumida’.

E enquanto Deus escolhe a próxima música, cortejaremos a vida com nossa melhor fantasia de fios de ilusão até que ela consinta. Já que, assim como nós, ela também exige respeito. Só depois, iremos tocá-la. Ela quer uma foda delicada, intensa, múltipla de sentidos, como o som das teclas de um piano. Com dores e delícias. Ela precisa disso. Eu preciso disso. Você também precisa disso. Para tanto, é preciso tesão pela vida e por nós. É preciso se aproximar da vida pronto e íntegro. E tudo acontecerá.

Este foi o sinal tocando?

Saiba mais sobre o autor: ” Músico frustrado, mesmo sem tocar nenhum instrumento, me especializei em ser espectador e ouvinte. Por conta disso, estou sempre à espera de uma nova história: vivida, contada, vista ou lida. Leitor de embalagens de comestíveis à Bíblia Sagrada, passando por literatura infantil. Ouço com atenção, por horas, a mesma música. Acho que nasci na Bahia, embora a certidão negue. (…)”

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