A Verdade (ainda é) silenciada sob balas

Oficialmente, a Comissão Nacional da Verdade acabou. Mas ela não tem fim. Vide as declarações de seus membros que pedem aprofundamentos e algumas revisões – que desagradaram uns e outros, dos dois lados do espectro ideológico do país. Mas, sobretudo, ela não acaba por um simples motivo: a verdade não tem fim.

A Comissão composta por Gilson Dipp, José Carlos Dias, José Paulo Cavalcanti Filho, Maria Rita Kehl, Paulo Sérgio Pinheiro, Pedro Dallari e Rosa Maria Cardoso da Cunha foi instituído pela presidenta Dilma Rousseff em 16 de maio de 2012, via decreto. A intenção era analisar as violações dos Direitos Humanos ocorridas entre o período de 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Após pouco mais de dois anos, 377 foram responsabilizados por crimes contra a humanidade. Os nomes estão na rede, basta acessar os relatórios finais.

É pouco? Para alguns, sim. No entanto, enquanto uns (bem poucos na avenida e em grandes imagens na mídia) marcham pelo retorno da ditadura e um homem, de posse de um cargo eletivo, faz apologia de um crime – sim, estamos falando de Bolsonaro – não custa lembrar o que é um regime de exceção. Nunca será demais listar os crimes ocorridos, os mortos e os agressores, de todos os lados. Com um único intuito: iluminar o passado e evitar que tudo continue se repetindo no presente e futuro. Por isso que a Comissão da Verdade não termina.

Agora somos nós, com os mecanismos que tivermos em mãos que devemos agir. Já que as violações dos Direitos Humanos, infelizmente, não estão apenas nos porões e arquivos embolorados da ditadura, nem apenas na memória dolorida dos que sofreram na própria pele, e na dos próximos, o efeito da intransigência. Luzes são necessárias. Como as que foram lançadas por Lúcia Murat, já em 1989, com o documentário “Que bom te ver viva”. Nele, monólogos da atriz Irene Ravache são intercalados por entrevistas com mulheres que foram presas e torturadas durante a ditadura militar. Todas fragilizadas, mas de uma coragem que emociona. São entrevistas sensíveis que mostram a dor impingida covardemente contra seres humanos que sobreviveram para contar histórias tristes.

Coisa do passado? Não, infelizmente. E um exemplo bem próximo é o  “Auto de Resistência”, uma medida administrativa criada durante a ditadura militar que perdura até hoje. O mecanismo permite que a polícia, que já é altamente militarizada, mate sob a justificativa de que houve reação durante a abordagem. De 2010 a 2012 foram 2.882 mortes catalogadas sob esta rubrica nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. O que joga na mesma vala muitos inocentes, já que mortes em confrontos policiais ocorrem. Por isso que muitos denominam esta medida como “Licença para Matar”.

Além de arbitrário, o mecanismo também revela mais sobre o sangue que escorre nos confrontos urbanos. Segundo dados do portal “Diário do Centro do Mundo”, só no estado de São Paulo, 61% das vítimas da polícia são negras, 97% são homens e 77% têm de 15 a 29 anos. Militantes dos Direitos Humanos pedem o fim da medida. Existe até um projeto de Lei que torna obrigatória a investigação de toda morte ocorrida em ações policias. Mas, como mostram as últimas noticiais, este tipo de questão ainda não é capaz de mobilizar uma passeata. Por que será? Estaríamos muito ocupados com nossos podres poderes?

Saiba mais sobre o autor: Músico frustrado, mesmo sem tocar nenhum instrumento, me especializei em ser espectador e ouvinte. Por conta disso, estou sempre à espera de uma nova história: vivida, contada, vista ou lida. Leitor de embalagens de comestíveis à Bíblia Sagrada, passando por literatura infantil. Ouço com atenção, por horas, a mesma música. Acho que nasci na Bahia, embora a certidão negue. No dito ‘lado prático’ da vida, marco, há uns quatro anos, o campo de ‘ensino superior completo’ em cadastros e formulários. Nas horas vagas, mas sem desmerecimento, trabalho como jornalista. O pão nosso de cada dia, tiro das coisas que mais gosto de fazer: conversar, observar, conversar e ter a certeza que não há nada mais bonito que um ponto de interrogação.

Seja o primeiro a comentar