A música como oferenda

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Luz/Sombra: Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci fazem o Metá Metá

O Metá Metá lançou por esses dias seu terceiro álbum, MM3 (download gratuito aqui). Separados, os integrantes da bada – Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci – já carregam a leveza e a responsabilidade do individual; juntos, são o som e a fúria na medida exata (e necessária) para encarar (ou enfrentar) dias tão complicados como os nossos.

São nove canções para tomar fôlego. Um carnaval onírico.

“O nosso é um tempo em que o projeto da interpretação é em grande parte reacionário, asfixiante. Como os gases expelidos pelo automóvel e pela indústria pesada que empestam a atmosfera das cidades, a efusão das interpretações da arte hoje envenena a nossa sensibilidade”, afirmava Susan Sontag, já em 1964, no ensaio “Contra a Interpretação”.

Portanto, não busquemos a leitura da obra. Na articulação entre letra e música as canções se fazem. O sucesso dessa empreitada está nesta articulação. A letra bem escrita dança ao som da música bem executada. Por isso, a proposta aqui (para quem ouve e para quem faz as canções) não é interpretar o presente, mas sim se fazer presente. Estar presente é a única interpretação possível, feita com o corpo impactado pelo sonoro do mundo.

O Metá Metá trabalha artesanalmente em cima disso. Nas nove canções de MM3 há convites para a reflexão, nunca para interpretações. E nosso pensamento, também dançando, apenas desenha no ar hipóteses para compreender um pouco o momento (histórico?). O desenho não é feito com pincéis da teoria, mas para todas as cores da sensibilidade. O quadro resultante não aspira apenas o estético, o ‘bem acabado’. Vai além da emissão.

E o modus operandi também reflete e contribui para isso. “A ideia, contudo, era deixar a banda afiada e resolver tudo rápido, ao vivo, com dois ou três takes. É uma questão de desapego: não temos a pretensão de fazer um disco perfeito, de estar com tudo certo”, afirmou Kiko Dinucci recentemente à Rolling Stone sobre este novo trabalho. “Nós encaramos como uma Polaroid daqueles dias mesmo.”

Na Era da Pretensão Imagética, pregar o contrário já é, no mínimo, indício de uma visão original. No Metá Metá eles são meio assim, emissários de originalidades e referências, escrivães de uma enciclopédia muitas vezes relegada ao último plano, fundindo o etéreo com o bruto.

Com o Metá Metá as articulações entre pessoas, outros trabalhos e sons formam uma cartografia. Ouvir as músicas e ir atrás das referências é quase como brincar; e o brincar se dá justamente porque a graça toda não está em mostrar quem tem mais conhecimento, mas sim no maravilhamento da descoberta. (Como Ney Mesquita, homenageando lindamente na música Batuque para Ney, do disco Padê, trabalho de Juçara e Kiko).

E MM3 é mais uma passo nessa brincadeira. Nele, as articulações com o externo também estão presentes, elas são (e serão) depuradas de ouvida em ouvida. São referências ao candomblé, santos, súplicas ao rei de koso, violência, incompreensão do amor, Marrocos, concerto, podridão, jazz e por ai vai, já que uma coisa vai puxando (lembrando) outra, desenhando as linhas cartográficas de um mundo em ruínas, mas cheio de beleza.

É um artesanato, não se esqueça. Não é canção solar pra botar ‘de fundo’. Ou melhor, o texto musicado é claro e vai ao fundo. Já na partida, na primeira faixa (“Três amigos”), há a constatação: “Uma esperança morta pra lá. Uma ferida aberta pra cá. Um carnaval onírico, ai. É, não deu, não dá”.

E, no fim, depois de tudo, ouvidas as canções, fica o delírio redentor, como uma prece sonora. E como se fosse ritual, tocamos no sagrado, com as roupas gastas pela dor e os olhos plenos de luz.

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