Você já parou mesmo pra pensar?

“Ele não roubou uma jóia, nem assaltou um banco, ele esfaqueou uma pessoa até a morte…” Eu li isso essa semana, pelo menos, 10 vezes. Eu concordo, isso é realmente assustador. Mas eu tenho algo a acrescentar…

A primeira coisa que eu queria dizer é que eu respeito a opinião das pessoas que pensam dessa maneira, não concordo, mas respeito. Porque acredito que a gente sempre começa por aí, respeitando.

Quero deixar claro também que eu não sou arrogante o suficiente pra acreditar que estou certa em todos os meus questionamentos, por isso, esse texto é apenas um convite pra pensarmos juntos, em vez de continuar pensando separado cada um no seu canto, no seu mundo, com as suas ideias e eu queria começar exatamente por aí.

Quando soube da notícia da morte triste e brutal do médico Jaime Golg, 56, que pedalava pela lagoa e foi morto a facadas, a primeira coisa que eu pensei foi:
-Putz, estamos caminhando pra trás, cada vez mais longe…
Eu não pensei:
-País de merda!
-Governo de merda!
-Polícia de merda!

Porque eu acho que é muito fácil apontar um culpado nessas horas e não assumir o problema como nosso. Sim, o problema é muito nosso.

O maior suspeito de ter cometido o assassinato do médico é um jovem de 16 anos. Um menino que deixou a escola aos 14 anos, que já foi parar na delegacia inúmeras vezes por furto, desacato à autoridade e tráfico de drogas. Mas também já esteve lá como vítima por abandono material e abandono de incapaz, segundo o Jornal Extra. São muitos os erros, mas será que são só dele?

O ponto crucial desse problema, disso tudo que o nosso país está vivendo, de marginalização e problemas cada vez mais absurdos de violência, precisa ser pensado de dentro pra fora, e não da maneira inversa.

Um adolescente que vive a margem da segurança e do bem estar em sua casa, tem uma noção de vida bem diferente.
É difícil achar um lugar seguro pra viver quando não teve quem te amparasse nem mesmo na infância, deve ser difícil seguir uma vida digna e honesta quando não se tem o que comer e nem a quem recorrer.

Eu não estou tentando justificar nada pra ninguém e muito menos dar razão. E é por isso que eu digo difícil, e não impossível. E aí eu parei pra pensar o que é difícil…

Quantas vezes eu não tive ninguém na minha vida? Quantas vezes eu passei fome? Quantas vezes eu vi uma pessoa morrer? Quantas vezes eu vi ou ouvi um tiroteio perto de mim? Quantas pessoas próximas a mim eu já perdi de uma maneira brutal? Quantas vezes a polícia entrou no meu bairro e trocou tiros com os moradores?

O convívio é um hábito que nos traz intimidade, às vezes com as pessoas, às vezes com uma cultura e, nesse caso, com tragédias.

O problema é nosso porque existem milhares de jovens que vivem nessa situação no Brasil hoje, e nós fazemos muito pouco pra mudar essa realidade. O problema é nosso porque essa triste realidade não tem só a ver com a marginalização e o crime existente dentro de bairros periféricos. Essa realidade tem a ver com segurança, políticas públicas, reconhecimento de direitos, luta contra preconceito de todos os tipos e quebra de barreiras. Essa realidade tem a ver com justiça e com igualdade. E isso, quem constrói somos todos nós…

Então, você já parou pra pensar?

Saiba mais sobre a autora: Fabíola Bueno estuda Jornalismo, é pisciana orgulhosa e naturalmente independente. Mineira aguda no modo de falar e tratar, apaixonada pela cidade maravilhosa e sua liberdade (…)

Seja o primeiro a comentar