De como ganhei um anjo

de como ganhei um anjo-graodefato

 Nós humanos somos egoístas, netos mimados são ainda mais (…)

A gente nunca está preparado pra perder. Porque perder sempre nos soa como uma facada nas costas. Sempre parece fraco e errado. Perder uma vida, por mais que seja premeditado, é a dor mais enlouquecedora de todas as perdas. A gente fica sem texto, sem vontade, sem reação.

Há algumas semanas perdi meu avô paterno. Viver essa experiência em uma cidade pequena onde todas as pessoas se conhecem me confundiu. Porque perder sozinha é difícil, mas perder acompanhado chega a parecer uma vitória.

Meu avô foi um homem forte que ficou paraplégico aos quarenta anos, desde então vinha sendo cuidado pela fiel esposa que tanto carinho lhe deu que perdeu qualquer outro sentido na vida. Sempre muito rigoroso com os filhos, seu Chico resolveu compensar nos netos a doçura que lhe faltava na paternidade. Foi com a gente que ele foi a parques, comprou sorvetes e juntos, acumulamos histórias que me fizeram rir e chorar ao mesmo tempo em seu luto.

A doença foi uma batalha acirrada que passamos com ele por muito tempo e seria egoísmo de nossa parte pensar que a morte não foi, pra ele, a melhor saída. Mas nós humanos somos egoístas, netos mimados são ainda mais. E soluçamos a sua morte juntos, como ele sempre quis. A família toda estava reunida e rezando por ele, até partirmos pra um almoço depois, em que rimos dele, rimos todos com ele.

Na derrota nem sempre temos a quem recorrer, mas foi nessa diferença que tropecei em um velório. Fui a primeira a chegar e recebi tantos que ali estavam comigo. num momento em que não se cabem palavras os abraços difundiram-se, os olhares confortavam, eu senti os pêsames de cada um que ali me acolheu. A sensação é de transferência de energia – aqui, eu lhe dou um pouco de mim pra você passar por isso, eu te empresto as minhas lágrimas, porque as suas parecem já ter findado entre os soluços. Te transfiro força, te transfiro fé e por que não amor? Então, na perda mais difícil nessa altura da vida eu posso me sentir confortável e amparada?

Transformar a perda em uma vitória é difícil, transformar a morte em uma vitória chega a ser insulto. Mas o senhor Chico precisava descansar. Foi teimoso até o ultimo minuto, não queria perder essa também. Os encontros, o carinho e o amor gerado nesse dia não podem ser uma derrota, é a comemoração de um anjinho que o céu ganhou. Um anjo de corpo cansado e que ganhou a chance de nos proteger aqui na terra. E nós, somos vencedores também por compreender que assim foi melhor e mais justo. Foi um curativo, foi forte e na hora certa

* Fabíola Bueno estuda Jornalismo, é pisciana orgulhosa e naturalmente independente. Mineira aguda no modo de falar e tratar, apaixonada pela cidade maravilhosa e sua liberdade. Queria entender todo o tipo de gente e achou justo sair pelo mundo para conhecê-los.

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