Viajar e a arte de sairmos de nós mesmos

Hoje dediquei os minutos do café da manhã à apreciação das fotos de Catarina, a gatinha nova da minha prima. Catarina chegou quando eu já não estava mais por lá, e só a conheço por fotos. Além de Catarina, chegou Vicente, o primo que já tem seis meses, e chegou Leticia, a namorada do meu irmão, e tudo isso eu acompanho pela tela do celular. Também partiu um tio-avô e uma vizinha querida. Minha irmã foi para o segundo ano de faculdade e aprendeu a dirigir, meus pais construíram uma churrasqueira, minha prima também tem um namorado, minha melhor amiga agora coleciona orquídeas, minha tia cortou os cabelos, e meus livros continuam dentro de algumas caixas que talvez estejam roubando espaço de um móvel novo, e talvez por isso alguns tenham sido doados.

Ontem, lendo um texto do DPB Intercâmbio (site no qual trabalho), pensei na volta pra casa, que agora está bem próxima. É sobre como ficamos deslocados quando voltamos, porque a vida por lá seguiu sem a gente, e porque nossa vida também seguiu. Óbvio.

Faz dois anos que saí do Brasil para uma experiência que deveria durar sete meses. Essa constatação tão óbvia de que a vida continua mesmo sem a gente por perto é bonita e dolorosa. Por onde quer que a gente vá, sempre estaremos perdendo algo. Perdemos pessoas, festas de casamento, nascimentos, almoços de domingo, os primeiros passos do primo, o aniversário da irmã, o florescimento dos ipês no canteiro central da cidade, o verão.

JulienMauve-GreetingsFromMars-5

No texto Isto é água, David Foster Wallace propõe um exercício de alteridade. Ele nos lembra do óbvio: não somos o centro dos acontecimentos, e uma vez entendendo isso as chances de viver em paz aumentam, porque entendemos que cada ser tem seus próprios fantasmas e alegrias, e o mundo não existe para nos atingir ou nos satisfazer. Somos apenas parte, detalhes, e há muita satisfação e tranquilidade em não sermos tão importantes assim. Exige dedicação entendermos que tanto quanto nós, qualquer outra pessoa está vivendo dores e alegrias, que para ela são infinitamente mais importantes que as nossas.

Agora, perto da volta, penso que é este o maior aprendizado de viver longe de casa: entender que o nosso universo, aquele que conhecemos desde que nascemos, formado por algumas pessoas que para nós são importantes, funciona mesmo sem a gente. A vida por lá segue. E uma vez que a gente vai embora, vai estar sempre perdendo algo. Mas o mundo nos recompensa com muitos, novos pequenos universos.

 

*As imagens que ilustram o post são da série Greetings from Mars, do fotógrafo Julien Mauve

Saiba mais sobre a  autora: Dizem eles que nasci em 1985, antes da hora. Cresci em sítio, sempre vivendo no interior, e minha vida é assim: em pequenas dimensões. Gosto de conhecer tudo de perto. Jornalista desde 2009, quando conclui a graduação (…)

1 Comentário

  • Responder fevereiro 23, 2016

    Vitor

    Esse texto transmite sabedoria de um jeito tão calmo que faz a gente prestar atenção. Obrigado.

    Fico imaginando o que passou na sua mente, Bataier, quando escolheu essa imagem.

    🙂

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