Todo tiro fere alguém

arma

E
u nunca vivi em um lugar onde o crime é a única saída para ter aquilo que eu nasci sabendo que nunca terei. Eu nunca fiz parte de um ambiente onde a violência (física, moral, psicológica) é frequente e onde falta comida, saúde e educação. Eu não sei se, tendo nascido sob outras condições, me tornaria ou não criminosa.
“Assistimos às cenas de sangue e dor enquanto mastigamos macarrão (…)”
Eu também nunca fui vítima de assalto. Nunca me vi diante de um sujeito com uma arma apontada para meus olhos, me subjugando e ordenando que entregasse o que é meu. Não sei se, sob estas condições, e estando eu armada, também reagiria.

Logo, eu não sei se devo condenar ou ser condescendente com a atitude do policial que disparou contra o assaltante durante o roubo de sua moto, (veja o vídeo no youtube).

Eu ainda não havia assistido ao vídeo, mas hoje, depois de ver memes e mais memes na minha timeline com a imagem do assaltante fiquei curiosa e procurei a gravação. Encontrei uma versão editada, com mensagens como “quem gostou da atitude do cara (o dono da moto) curte”.
Eu tenho um amigo que diz que é preciso haver um estudo sobre a banalização da violência. Eu imagino que já existam alguns, mas o que ele sempre observa é que uma cena ousada de sexo, ou o “polêmico” beijo gay, não passam batidos: as pessoas condenam, se chocam, fazem campanha para evitar. À isso, estamos atentos. Ficamos incomodados.

No entanto, a violência se faz presente o tempo todo nas ruas e ambientes de trabalho. Entra em nossas casas na hora do almoço pelo telejornal e na hora do jantar pela novela. Assistimos às cenas de sangue e dor enquanto mastigamos macarrão.

Merece um estudo a forma como aceitamos isso e incorporamos à nossa rotina, sem passar pela reflexão. Aceitamos e cruelmente nos divertimos com a violência. Li comentários sobre o vídeo do rapaz sendo baleado que pareciam tratar de um belo lance de partida de futebol. As pessoas comemoravam como se fosse uma grande vitória (não se sabe ao certo de quem).

Como se aquilo não fosse uma cena de assalto. Como se alguém não houvesse ficado ferido. Como se por trás daquilo tudo não estivesse a insegurança em que vivemos. Como se não fosse de se espantar que pessoas precisam andar armadas enquanto passeiam de moto (ou, mais triste ainda, que andam armadas porque querem). Como se por trás da atitude do rapaz não houvessem outro milhões que passam fome, que não têm acesso à educação de qualidade, que roubam para viver ou que nunca roubaram mas vão seguir sendo explorados. Como se um tiro resolvesse todo o mal do mundo e merecesse ser alvo de celebração, não de lamento.

* Dizem eles que nasci em 1985, antes da hora. Cresci em sítio, sempre vivendo no interior, e minha vida é assim: em pequenas dimensões. Gosto de conhecer tudo de perto. Jornalista desde 2009, quando conclui a graduação (apesar de até hoje não ter ido buscar o diploma), escrevo por profissão e por não saber fazer outra coisa. Além de bambolê e drama.

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