Penteadeira, Abajour e Curta-metragem

Foi hoje que eu decidi assistir a esse curta-metragem que um amigo havia me mandado há dias. Foi também hoje que, pelo grupo da nossa família no whatsapp, meu irmão mostrou imagens da casa nova para onde ele se mudou.

No vídeo, enquanto ele movia a câmera do celular de um canto a outro do quarto, eu pude ver minha penteadeira e meu abajour.

Então eu fingi incômodo ao ver aquelas coisas tão minhas ali no quarto dele. Minha mãe interveio e me lembrou que ele havia, antes da mudança, me perguntado se podia ficar temporariamente com as duas peças e eu permiti. Era brincadeirinha, mãe, você sabe. Não precisava pedir, claro, embora eu pudesse ficar bastante chateada caso visse minha penteadeira espremida entre duas paredes num desses apartamentos mal iluminados que as construtoras colocam no mundo a torto e a direito sem se importar com quem vai viver ali dentro.

Mas meu irmão não me decepciona, e lá estava a penteadeira iluminada pela luz que entrava da sacada de portas grandes com vista para a rua calma e duas palmeiras, e isso não tem nada a ver com dinheiro, mas com paz e liberdade.

Foi naquele videozinho caseiro de menos de 30 segundos que eu percebi um infinito de coisas. O apartamento no prédio amarelo da rua de paralelepípedos, onde por três anos dividimos teto, não faz mais parte da minha vida. Não tenho mais as janelas grandes do último andar, e a gente sabe quanta história ficou por lá.

Leminski falou que a vida é as vacas que você põe no rio pra atrair as piranhas enquanto a boiada passa. Ver a vida acontecendo lá, e aqui acontecendo também, é concretizar esse poema. Foi porque eu cá coloquei a vaca no rio que a boiada de lá passou.

Eu não vou voltar para o lugar que, junto do meu irmão, fiz mais meu o possível. Assim como não voltarei para quem fui naquele lugar, naqueles anos todos de sol e brisa morna entrando pelas janelas.

A gente nunca volta praquilo que um dia foi. Importante é ter quem caminhe paralelo à gente a vida toda, de mãos dadas. O curta-metragem é também sobre isso: as coisas singelas da vida.

 

* Saiba mais sobre o autor: “Jornalista desde 2009, quando conclui a graduação (apesar de até hoje não ter ido buscar o diploma), escrevo por profissão e por (…)”

 

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