O que não se justifica

Um dos primeiros livros que recordo ter lido na adolescência é Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. Numa das passagens mais emocionantes, Marcelo narra o dia em que chegou em casa e o pai não estava mais lá. No lugar dele, havia homens armados que ficaram por dias convivendo com Marcelo (que era criança), a mãe e as irmãs, no apartamento da família. Tudo é relatado: a tensão que pairou sobre o lar, a incerteza, o desespero que se seguiu.

O engenheiro Rubens Paiva, pai do Marcelo, nunca mais voltou pra casa. Os homens armados que ocuparam o apartamento – e boa parte da memória do Marcelo – eram os militares, aqueles da ditadura.

Meu pai é da mesma geração do Marcelo, esse pessoal que hoje tem entre 50 e 60 anos. Certa vez, ele me contou uma lembrança da infância em Santo André (região metropolitana de São Paulo), quando ouvia seu pai – meu avô – conversar na cozinha de casa com familiares e amigos. Toda convesa sobre política vinha com um aviso para as crianças: “não fala na rua o que você tá ouvindo aqui que eu posso ser preso”. Não que meu avô fosse ativista, artista, guerrilheiro ou qualquer coisa que justificasse perseguição política – se é que ela é justificável. Mas, diante da arbitrariedade dos militares, ele sabia que toda cautela era bem-vinda.

Quando Umberto Eco disse que a internet deu voz a uma legião de imbecis, meu otimismo me fez discordar. São alguns imbecis em meio a uma multidão que nunca teve voz, e hoje tem. A internet é um incrível espaço de debate, encontros e empoderamento. No meio disso tudo, vez em quando um imbecil ergue a voz sem saber do que fala. Como um tipo que tem aparecido recentemente: o que defende a tortura como forma de combate à violência, fazendo menção aos militares da ditadura.

A glorificação de torturadores do passado, parece-me, reflete no conservadorismo de hoje; e parte do conservadorismo de hoje se apoia nessa glorificação. Um erro absurdo, porque nenhuma tortura é justificável, ainda mais nas mãos de quem tinha o poder de punir por meios legais. Tirar um homem da própria casa sem nunca mais dar satisfações a sua família não é justiça, qualquer que fosse o crime do qual ele foi acusado: é, no mínimo, maldade.

Mas vamos focar na ação, e não no motivo. Vamos focar nas consequências e no quanto de humanidade ainda temos dentro de nós. São vários os relatos que retratam o sadismo dos militares. A internet tem mais esse benefício: podemos pesquisar sem sair de casa e ler o que conta, por exemplo, a jornalista Miriam Leitão, que foi torturada quando estava grávida.

Há quem argumente que os relatos são exagerados e manipulados por interesses diversos. Para isso, temos aquilo que a internet, essa ferramenta maravilhosa, nunca vai substituir: o contato humano, a conversa com quem conheceu e viveu, olhos nos olhos, sentir de perto. Não precisamos de uma sociedade que justifica erros passados, mas que olha para eles com a intenção de não repetí-los. É importante ir além do medo se se quer evoluir. Ouvir o outro e entender que o diferente não é mau.

Se ainda assim prevalecer a ideia de que para combater o mal vale qualquer coisa, talvez quem quer combatê-lo tenha em si o próprio mal. E isso informação nenhuma resolve.

Saiba mais sobre a  autora: Dizem eles que nasci em 1985, antes da hora. Cresci em sítio, sempre vivendo no interior, e minha vida é assim: em pequenas dimensões. Gosto de conhecer tudo de perto. Jornalista desde 2009, quando conclui a graduação (…)

2 Comentários

  • Responder maio 2, 2016

    Fabrício Procópio

    Mais um texto primoroso do(a) Grão de Fato.
    Essa é uma questão muito maior e muito mais forte que o duelo político que estamos vivenciando. No entanto, está sendo usada como chacota, como uma coisa qualquer.

    Textos assim vêm na contramão do terrível modismo que consiste basicamente, acho, em banalizar momentos imbanalizáveis como a Ditadura.
    Muitos brasileiros não fazem idéia do quê estão ajudando a fomentar; Isso é muito grave. Parabéns! Clap,Clap,Clap!

    PS: Daí só agora vejo a autora;;; Penso: Claro que seria dela!

    • Responder maio 2, 2016

      Grão de Fato

      Obrigada! 🙂

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