O prazer de sairmos de nós

“Se você fosse perspicaz o bastante para saber que essa vida consistiria basicamente em abrir mão de coisas que você desejaria, então por que não ficar realmente boa em abrir mão de coisas, em vez de tentar obtê-las?”

– trecho de O primeiro Homem Mau, de Miranda July

Outro dia, pela janela do ônibus, vi sentado na calçada apoiado no batente de uma loja um homem de chinelo nos pés, camiseta de time de futebol e sacola nas mãos. A imagem, favorecida pelo ócio que experimentamos dentro dos ônibus circulares , desencadeou um fluxo de pensamentos baseado na ideia principal de que por um ínfimo detalhe da natureza, ou por mero acaso, eu não era aquele homem. É um pensamento recorrente: o que exatamente define quem somos nós? Qual foi o instante em que minha consciência se prendeu ao meu corpo? Qual o fenômeno natural ou sobrenatural que nos faz ser quem nós somos, e não aquela moça que nos atendeu mais cedo no caixa da farmácia? Qual o limite da minha realidade?

Se todo bom livro nos permite um exercícios desse tipo – a saída de nós mesmos e a compreensão do mundo pelos olhos do outro – o livro “O Primeiro Homem Mau”, de Miranda July, é uma ótima obra.

Cheryl, a narradora, é uma mulher de quarenta anos que vive sozinha em sua casa metodicamente organizada. Seus prazeres são concentrados nas fantasias que ela nutre por Phillip, um colega de trabalho 20 anos mais velho. Quando Cheryl aceita hospedar Clee, a jovem filha de um casal de amigos, vê sua zona de conforto ameaçada. Clee é egoísta, agressiva e se diz misógina. A saída encontrada pelas duas para diluir o ar pesado que paira sobre a casa é a encenação de lutas corporais. A relação toma um rumo ainda mais confuso quando Cheryl passa a se imaginar no papel de Phillip seduzindo Clee.

No livro, o exercicio de pensar através do outro se dá em vários níveis. Primeiro, por meio dos personagens, que aceitam encarnar papéis. Depois, através do inconsciente dos personagens, escancarado pela narração. Por fim, no nível mais amplo da construção da narrativa onde sentimos que a autora invadiu nosso próprio inconsciente para compor seus personagens. Não me surpreende saber que Miranda July é artista de performance, expressão artística que atua visando agir – também – no insconsciente do expectador.

O nível de intimidade com que o enredo se desenvolve é tal que entendemos os anseios de Cheryl, por mais que no primeiro momento ela pareça uma pessoa egoísta, desagradável. Um gancho para o que deveria ser um exercício diário: abandonarmos, vez em quando, nossas próprias certezas, mesmo que por brincadeira.

É uma leitura levemente incômoda. Desconfortavelmente reconfortante.

 

Saiba mais sobre a autora: Dizem eles que nasci em 1985, antes da hora. Cresci em sítio, sempre vivendo no interior, e minha vida é assim: em pequenas dimensões. Gosto de conhecer tudo de perto. Jornalista desde 2009, quando conclui a graduação (…)

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