Nós e os Tenembaums

 

A primeira vez que eu assisti The Royal Tenembaums (Wes Anderson, 2001) eu tinha 21 anos, cursava o segundo ano de jornalismo, e morava a pouco mais de 50 quilômetros da casa dos meus pais.

Gostei muito do filme, mas se me perguntassem naquela época não saberia dizer bem o porquê. Não foi somente a técnica – a bela fotografia ou a escolha exata da trilha sonora – que me encantou. O filme me deixou reconfortada. Gostei com a alma, mais que com o cérebro.

Quando eu tinha 24 anos, meus pais e meus irmãos foram passar alguns dias em uma pousada em Ubatuba. Eu estava trabalhando e não pude ir com eles. Por sorte, o pessoal do jornal me liberou de última hora para curtir o feriado. Entrei num ônibus na rodoviária de Bauru. Horas e aventuras depois, fui parar numa estrada estreita de uma praia de Ubatuba. De longe, minha mãe vinha me encontrar. Naquele feriado, em um daqueles dias quentes e nublados do litoral paulista, estávamos nós cinco no carro procurando uma praia nova quando meu pai profetizou “aproveitem bem esse momento. Pode ser a ultima vez que todos estamos fazendo uma viagem juntos”.

Vieram outros anos. Meus pais mudando de casa, meu irmão e seus empregos, minha irmã e o vestibular. Eu e os namorados. Eu e o jornalismo. Nós cinco, a família, nunca mais seguimos juntos pelas curvas da estrada de Ubatuba.

Agora, 10 mil quilômetros distante deles, ocorreu-me de rever o filme. Oito anos depois da primeira vez foi que o óbvio – àquela época escondido nos poucos quilômetros que me separavam dos meus – se revelou.

Quando eu assisti ao filme pela segunda vez, estava conversando com um rapaz que tinha a foto do Richie Tenembaum (Luke Wilson) no perfil do Facebook. Ele me contou que Richie era seu personagem preferido, e falamos da cena em que ele e Margot (Gwyneth Paltrow) dormem em uma tenda na sala da casa e da beleza daquele momento. Uma tenda na sala de casa pode ser algo estúpido, ou pode ser o lugar mais confortável do mundo, depende da experiência de cada um.

É ali que mora a beleza do filme: no retrato das sutilezas que se vive em família. Os problemas, as manias, os traumas e todos os outros detalhes que somente para aquelas pessoas têm significado. Somente elas construíram e dividiram confortos e aflições que aos outros não faz sentido algum. A força subliminar que une pessoas que dividiram a mesma história é uma das coisas mais sutis e bonitas desta vida.

A gente se identifica na intimidade das relações familiares dos Tenembaums. E ali, nas excentricidades deles, a gente relembra das nossas.

Do irmão que a gente tentou matar. Da estranha mania da mãe. Das receitas e das crenças da tia. Dos vícios que todo mundo tem, todo mundo esconde e todo mundo sabe que o outro tem e faz esforço para esconder. Das tendas feitas com cobertor que nosso pai montava na sala pra gente se divertir. Das mínimas coisas que a gente não nota e vão construindo o que a gente é.

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Eles vão estar lá. Alguns, fingindo que não estão e outros querendo não estar, mas estarão. Aqueles que levam a gente para perto do que a gente realmente é.
Depois de dez meses a 10 mil quilômetros de distância, eu voltei para o Natal. Nós choramos, brigamos, rimos, entramos num carro rumo ao litoral paulista, dessa vez sem o meu irmão, porque o meu pai estava certo. E quando eu fui brincar com as crianças, montei uma tenda de cobertores na sala.

 

 

Saiba mais sobre a autora: Dizem eles que nasci em 1985, antes da hora. Cresci em sítio, sempre vivendo no interior, e minha vida é assim: em pequenas dimensões. Gosto de conhecer tudo de perto. Jornalista desde 2009, quando conclui a graduação (apesar de até hoje não ter ido buscar o diploma), escrevo por profissão e por não saber fazer outra coisa. Além de bambolê e drama.

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