Irmãos

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Esse negócio de inventar datas comemorativas a torto e a direito serve para uma coisa: pensarmos nas pessoas às quais a data remete. Foi no dia do irmão que eu concluí este texto, que estava guardado fazia uns anos. Uma homenagem à relação mais leal e insana que podemos estabelecer nesta vida.

Eu sei que, para pais exigentes, eu não sou o exemplo de boa filha. Nem eu nem meu irmão. Talvez, não sirvamos como orgulho nem para pais pouco exigentes: tanto eu quanto ele já erramos muito, roubamos noites de sono e fizemos por merecer os finais de semana que passamos em casa de castigo.

Eu levo no cantinho do olho esquerdo a lembrança do quadro de madeira que ele arremessou depois que eu lhe mordi o braço gordo (..)

Dizem que todo mundo que tem filho, em um dado momento da vida (seja diante de uma nota baixa, de uma tatuagem feita às escondidas ou de uma ligação vinda da delegacia), põe as mãos na cabeça e se questiona: “onde foi que eu errei?”.

Sendo eu e ele quem somos, e se a suposição acima é verdadeira, calculo que ao menos dez vezes meus pais já tenham feito a questão “onde nós erramos?”.

Se realmente erraram, não sei. Mas sei exatamente o ponto onde acertaram: na relação que permitiram que nós três – os filhos – estabelecêssemos entre nós.

Eu e meu irmão já deixamos cicatrizes um no outro. Ele leva na cabeça a marca dos cinco pontos da vassourada que eu dei naquela tarde conturbada de 1996 na casa da minha avó. Eu levo no cantinho do olho esquerdo a lembrança do quadro de madeira que ele arremessou depois que eu lhe mordi o braço gordo. Nós dois, juntos, levamos na memória todas as tardes de cuidados dedicados à mais irmã nova (essa, sortuda, se livrou da pancadaria).

Crescemos e as brigas ficaram insignificantes. Hoje eu sei que se existe amor gratuito e verdadeiro, é por eles que eu sinto. Vejo amigos que morrem de ciúme dos irmãos e brigam com namoradas, noivas, amigos deles. Eu não posso sentir outra coisa pelos namorados e namoradas dos meus irmãos senão carinho e gratidão por fazerem feliz quem eu quero bem. Somos amigos, parceiros nessa vida.

Eu penso: tenho ao meu lado as duas pessoas mais incríveis que conheço. Sempre comigo desde meus primeiros anos, eles me fazem pensar que um pouco do meu desdém com sentimentos superficiais vem daí. O mundo que perdoe meu coração pequeno e egoísta, mas com tão bons exemplos ao meu lado, eu fico exigente demais e tendo a acreditar em amor sincero e eterno. Daquele jeito que não há ipod quebrado, caderno rasgado ou cicatriz na cabeça que faça mudar.

* Carolina Bataier: “Dizem eles que nasci em 1985, antes da hora. Cresci em sítio, sempre vivendo no interior, e minha vida é assim: em pequenas dimensões. Gosto de conhecer tudo de perto. Jornalista desde 2009, quando conclui a graduação (apesar de até hoje não ter ido buscar o diploma), escrevo por profissão e por não saber fazer outra coisa. Além de bambolê e drama.”

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