Com Ana, blues

Quando Ana me encontrou, eu fiquei cerca de cinco minutos apreciando a capa do livro, parada no meio de uma livraria numa estação rodoviária em São Paulo, num dia quente e nublado, pensando na alegria de ter encontado Ana, sem estar procurando por ela naquele momento. Quando Ana me encontrou nesse dia, e eu soube que na verdade eu a procurava há tempos, por mais que não soubesse disso conscientemente, esse encontro foi na verdade um reencontro. Dessa vez na hora certa.

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Quem me apresentou Ana, anos antes, foi o Mário Prata. Foi Mário quem me falou dela e do Caio Fernando Abreu. A Ana C. e o Caio F. vieram no mesmo livro que li nos primeiros anos de adolescência, o 100 crônicas de Mário Prata.

Caio me tocou primeiro. Num tempo de descobertas, dormimos e acordamos juntos. Ele me secou muitas lágrimas, e derrubou outras tantas. Eu entendi que a dor chega para quem se dispõe a viver, não há como fugir; mas uma vez em nossas mãos, podemos fazer dela algo belo. Podemos tirar dela uma poesia ou uma flor. Caio me disse que é possível ser leve, ainda que com tristeza, ainda que a vida machuque. Eu fui Zézim, e ouvi que “você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar”. E por vezes eu temi viver num eterno Sem Ana, Blues, pesando fundo numa solidão daquelas de onde nada nem ninguém nos resgata, nem droga, nem amigos, nem amor novo, nada; flutuando eternamente dentro de uma bolha de sabão suspensa no ar, numa sala de apartamento num entardecer com raios de sol entrando pela varanda, a espera de um vento súbito que talvez me levasse para longe.

Então, quando o inferno – e também o paraíso –  não eram mais os outros, mas sobretudo eu mesma,  me joguei nos braços de Ana. Ana me reencontrou – anos depois de Mário Prata me falar dela – em uma livraria na estação Barra Funda, no começo de 2014. Ela se jogou em minha frente e tivemos um encontro de almas. Ana C., que numa primavera de 1983 voou – como disse Mario Prata – da janela de um apartamento no Rio de Janeiro. Ana, que em 2013 teve toda sua obra reunida num livro de capa cor-de-rosa e azul gritantes. Foi assim que nos reencontramos, poeticamente, numa estação rodoviária, num dia de despedidas. Ana entrou gritando em minha vida, no meio de uma confusão, quando eu entendia que o inferno era sobretudo eu mesma – e naqueles dias eu não via paraíso algum – e, naqueles dias, eu resolvi deixar emprego, família, amigos, e passar um tempo longe de mim.

Na viagem, Ana ficou. Esqueci sem querer o livro grande, a coletânea de escritos dela, que lia naqueles dias quentes antes de me mudar para a Irlanda nessa temporada de busca por mim mesma. Hoje me lembrei de Ana, que vocês precisam conhecer. Uma poesia contundente, amor escorrendo pelas letras, pensamento ligeiro e muito, muito sentimento. Ana, que é como sentar só à beira do mar numa praia vazia em dia nublado. Ana, que tem gosto de andar descalça a noite no asfalto, com uma garrafa na mão. Ana, que é como acordar depois de um pesadelo.

Ana deixou o mundo material antes de eu nascer, mas nosso encontro aconteceu na hora exata, e eu não sei se isso é metafísica, astrologia ou qualquer outro misticismo. Depois do nosso reencontro, compreendi que compreendendo Ana não há como não viver um pouco desse eterno sem ana blues que eu tanto temia.

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O livro que reúne a obra de Ana Cristina é da Companhia das Letras.

Saiba mais sobre a autora: Dizem eles que nasci em 1985, antes da hora. Cresci em sítio, sempre vivendo no interior, e minha vida é assim: em pequenas dimensões. Gosto de conhecer tudo de perto. Jornalista desde 2009, quando conclui a graduação (apesar de até hoje não ter ido buscar o diploma), escrevo por profissão e por não saber fazer outra coisa. Além de bambolê e drama.

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