Bicha, sim!

Toda vez que surge no Facebook uma onda de compartilhamentos de ilustrações críticas sobre a era digital eu fico incomodada. Não sabemos ainda o tamanho do prejuízo que nossas horas diante do smartphone podem nos trazer – se é que essa mudança comportamental vai nos trazer prejuízos – no futuro. Nossa relação com o mundo online ainda é recente.

Muito me incomoda a ideia da demonização da internet. É preciso um tanto de egoísmo para não notar os benefícios que, sem as conexões que a rede permite, seriam muito mais difíceis de ser alcançados. Alguns desses benefícios estão no documentário pernambucano Bichas, lançado em 20 de fevereiro: o debate, a reflexão e a quebra de preconceitos.

O enredo tem relação com outra palavra que nos é familiar graças à internet: empoderamento. O termo já é batido entre militantes, mas que gaste-se o quanto for necessário. Queremos pessoas empoderadas. E as da vez, como mostra o documentário de Marlon Parente, são as bichas. Isso mesmo: bichas, sem eufemismos.

“Eu ouvi que eu era bicha quando eu tinha, sei lá, 6 anos de idade. Eu estava numa padaria, eu acho, e um cara falou isso pra mim. E eu não sabia o que era aquilo, mas o jeito que ele falou era tão pesado que eu entendi que aquilo era uma coisa muito ruim”, diz Bruno Delgado, um dos entrevistados do vídeo.

Em tom intimista, Bichas traz depoimentos de rapazes jovens contando sobre a descoberta da sexualidade, o preconceito sofrido e a aceitação. O documentário foi lançado no youtube e com menos de uma semana no ar já conta com mais de 200 mil visualizações. O retorno positivo mostra que o debate veio em boa hora. Nos comentários do canal, além dos elogios há agradecimentos.

Há também, claro, o ônus internético. Orlando Dantas, um dos participantes do vídeo, conta que, como era de se esperar, há comentários negativos. “Mas estamos tentando não ler e quando lê, ignora. Tem tanta coisa positiva que os negativos perdem”.

O trunfo é duplo: para os preconceituosos, o olhar direto, humano e desarmado. O recado é este: sou uma pessoa, tanto quanto você. Eu me aceito e não tenho que tolerar sua ignorância.

Para as bichas, a força e a mensagem: existimos, estamos juntas e há lugar para nós. Confira:

 

Saiba mais sobre a  autora: Dizem eles que nasci em 1985, antes da hora. Cresci em sítio, sempre vivendo no interior, e minha vida é assim: em pequenas dimensões. Gosto de conhecer tudo de perto. Jornalista desde 2009, quando conclui a graduação (…)

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