Mineirinho, os estudantes e a PM

Nós sabemos que a polícia brasileira é violenta. Amarildo sabe. As vítimas do Carandiru também. Os professores do Paraná sabem. Datena também sabe e se orgulha disso. Alguns de nós sabemos, mas esquecemos. Ou escolhemos esquecer, porque está longe da nossa casa. Não é todo mundo que escuta os gritos da quebrada.

Quando os gritos invadem o nosso quintal, fica mais fácil de ouvir. E mais difícil de suportar. No domingo, seis estudantes universitários ficaram feridos. Aconteceu em Bauru, cidade onde estudei e frequentei festas de república, como são chamadas as moradias estudantis. Os fatos são: cerca de 30 estudantes faziam um churrasco, vizinhos reclamaram do som, policiais foram até o local, os jovens negaram a entrada da polícia na casa, tudo acabou em violência. No Facebook, um rapaz que passava pela rua disse ter visto um policial ajoelhado sobre o peito de um dos rapazes. A foto de uma das vítimas deixa claro o excesso: olhos inchados, manchas roxas. Não precisava.

Quando trabalhei como repórter em Bauru, frequentei quase que diariamente a delegacia. Numa dessas idas, havia um homem algemado à cadeira da sala de espera, sob a vigilância e as ameaças de um policial. O homem, acusado de furto, protestava que o tratamento recebido era desnecessário: pedia que lhe soltassem das algemas. O policial, que respondia agressivamente, aproximou o rosto da face do acusado, apontou o dedo: “se você não ficar quieto, vou te arrumar mais motivos pra ficar aqui”, e riu. E sorriu para mim. Eu entendi que a ameaça era um procedimento comum, tão comum que o oficial não via problema algum em fazê-la na minha frente.

E como frequentei quase que diariamente a delegacia, também vi o quanto muitos desses policiais trabalham, as ameaças que recebem, o estresse por que passam. E, estando dentro desse ciclo de violência, é difícil, é verdade, manter a calma. Mas são treinados para isso. Ou não? Poderiam protestar contra quem os coloca nesta posição em vez de agir arbitrariamente.

No conto Mineirinho, Clarice Lispector fala da morte do criminoso que dá nome ao texto, assassinado pela polícia com 13 tiros. Em uma entrevista dada à TV Cultura, a autora explica: “Qualquer que fosse o crime do Mineirinho, uma bala bastava. Treze foi covardia, foi vontade de matar”.

A entrevista de Clarice, de 1977, continua atual. Tão atual que o tema nem mais assusta tanto quanto deveria. Os policiais trabalham sob pressão e ganham pouco. Vivem em situação de estresse. Mas qual o limite entre a condição a que estão submetidos e o sadismo? No depoimento de um dos estudantes, o policial diz: “Hoje vocês vão conhecer a Polícia Militar do Estado de São Paulo”.

11 viaturas para um churrasco. Balas de borracha contra estudantes desarmados. Para uma reclamação de perturbação de sossego, uma advertência bastava. O resto foi covardia, violência gratuita por parte de quem recebe treinamento para nos proteger.

Nos portais que notiriciaram o ocorrido em Bauru, comentaristas cegos de medo apoiam a ação da PM. Acreditam que os jovens precisam “entrar na linha”. Que para manter a ordem vale tudo. Há os que tentam ver o lado dos policiais. Eu tento, mas não posso concordar. Se existe um ciclo de violência, em algum ponto ele precisa ser quebrado. E se tem alguém que pode quebrar esse ciclo, é justamente o lado mais forte. O lado que tem armas, treinamento, conhecimento. O lado que jamais deveria abusar do poder que tem em mãos.

A cada ato violento da polícia aplaudido pela sociedade, um inocente sofre. No Twitter, um amigo resumiu meu sentimento. “A gente vai tentando trabalhar empatia para causas que não são nossas e surge algo que era você ali outro dia. Bate forte demais”.

Saiba mais sobre a autora: Dizem eles que nasci em 1985, antes da hora. Cresci em sítio, sempre vivendo no interior, e minha vida é assim: em pequenas dimensões. Gosto de conhecer tudo de perto. Jornalista desde 2009, quando conclui a graduação (…)

2 Comentários

  • Responder maio 18, 2016

    Henrique

    A autora.
    O texto contém sentimentos seus, que já participou destas festas, em também dos que lá estavam e foram mal tratados pela polícia, tem depoimento do estudante, até tem de um usuário do twitter que titubeia entre um lado e outro, pois um dia esteve lá em uma dessas festas(neste momento ele também não é homogênio na crítica). O que não vi ai foram palavras de um dos primeiros policiais que chegaram aos locais.
    Outro ponto interessante é a divisão injusta de separar o lado que tem armas e treinamentos do lado estudantil como indefesos. Primeiro, não são indefesos e para ferir alguém basta um membro inferior ou outro superior. Segundo, se for comparar capacitação como linha entre ferir e ser ferido, os estudantes universitários fazem parte de uma minoria brasileira que tem capacidade intelectual de reconhecer a perturbação da ordem, ou a lei do silêncio. Bastava então pedir desculpas aos policiais representantes da população que fizeram a reclamação e encerrar a festa, já que a lei é acima da discussão da pauta sensacionalista jornalística, ou se não for, que critique respeitosamente como impulsão para uma mudança de forma orgânica ou mude de país aqueles que dizem que nos EUA é de tal forma e que na Europa é de outra forma ainda melhor.
    11 viaturas para um churrasco? Antes fosse para um churrasco né autora? quem tem bala de borracha e recebe treinamento para nos proteger é gente como nós e não é obrigado a levar uma agressão em primeira instância antes de reagir.

    Em paralelo… será que meu coment vai ao ar?

    • Responder maio 18, 2016

      Grão de Fato

      Oi, Henrique. O texto contém sentimentos, sim. Fiquei pessoalmente tocada, por saber que poderia ser eu ou alguém querido. A versão dos policiais está nas primeiras notícias dadas pela mídia local após o ocorrido – e somente a versão deles. No mais, minha opinião é a que está no texto: nós sabemos que a polícia age sim com excessos, e isso preciso ser questionado. Por mais que trabalhem sob pressão, há um limite entre os procedimentos necessários e o sadismo. Ouvi outro relato parecido: policiais chegam em festa devido à reclamação de vizinhos, tentam entrar na casa, moradores – cientes de seus direitos – negam a entrada e policiais agem violentamente, ameaçam. Parece ser um procedimento.

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