Quem era mais nazista? Hitler, o vizinho ou vovô?

Quem era mais nazista? Hitler, o vizinho ou vovô?

Essa inscrição que alguém fotografou em um banheiro na Alemanha – e que dá título a esse humilde texto – é um pouco emblemática em relação ao momento que vivemos em pleno 2015. Parece ser como diz Sakamoto: o lado bom de viver em uma sociedade intolerante ou abertamente antiética, homofóbica, misógina, racista e etc é que você pode identificar mais facilmente quem são os “inimigos”. Uma tentativa de desmistificar aquele velho ranço da intolerância à brasileira, to tipo: o Brasil é campeão em desigualdade racial, mas ninguém é racista. Pois é, ninguém quer admitir que o vovô, a vovó ou sei-lá-mais-quem-próximo-e-amado é um fascistão.

2015-06-07t192043z_15110779

Performance de Viviany Beleboni na Parada Gay 2015, em São Paulo.

Porém uma performance como a da transexual Viviany Beleboni, na última Parada Gay de SP (07/06/2015), que reviveu um Jesus Cristo contemporâneo – e ainda complexo para nossas mentes em desenvolvimento –, aflora aquilo que há de pior nos reacionários, fundamentalistas e nazi-fascistas, os intolerantes de carteirinha por aí. Em primeiro lugar, questiono-me sobre o porquê de estas pessoas, que tem encabeçado movimentos de extremo ódio contra tudo que não é padrão normativo social, não se pronunciarem a respeito de tanto outros acontecimentos realmente violentos e aviltantes por ai. Como: genocídio de indígenas, de transexuais, de pessoas pobres, jovens negros e enfim tantos outras questões e problemas graves que envolvem nossa sociedade. Ah! Deve ser porque esse seguimento da população, possivelmente, não importa muito para estas pessoas. Segundo lugar, questiono-me a respeito do papel dos ícones e imagens religiosas, que embora importantes, estão indubitavelmente abaixo, em escala de importância, da própria fé e da dignidade humana. A religião e a sociedade são feitas por pessoas, por gente de carne que necessita de autorreflexão todos os santos dias. As imagens e a importância delas são atribuídas por pessoas. Ou seja, o ícone será sempre o ícone, e pessoa real sempre pessoal real. É necessário refletir a respeito da mensagem das religiões. De que vale uma bíblia decorada ao pé da letra e um monte de sofredores na vida real precisando de compaixão e amor?fotos_viviany_beleboni-7-2

O que nos choca não deveria ser a travesti “vestida” de Jesus, mas o porquê tantos e tantas irmãos e irmãs são crucificados todos os dias. O sangue falso no corpo da travesti não me choca tanto quanto o sangue verdadeiro que verte das veias dos travestis, transexuais, transgêneros, pessoas com relações homoafetivas, mulheres, negros, pobres, população em situação de risco, desabrigados e tantos outros injustiçados no Brasil. Isso sim me choca de verdade. Claramente, certo e errado estão em jogo. Claramente, precisamos parar de gritar uns com os outros e escutar o que se tem a dizer. Respeitar opiniões divergentes, construir diálogos e não monólogos, erradicar discursos de violência contra o outro, tanto física quanto psicológica.

Daí sim, talvez possamos perdoar o vovô por ser nazista e continuar nossa caminhada de politização em direção às transformações importantes que o mundo precisa. Independentemente de, se por acaso daqui a algum tempo, chegarmos à conclusão de que o que houve foi “exagero”. Tendo sempre claro em nossas mentes que estes foram tempos de extremos. Talvez finalmente possa valer a moral mais importante do tão controverso Novo Testamento: Amai-vos uns aos outros.

 

 

* Alê Moraes é capricorniana, mas não tem nada a ver com seu signo.  Na verdade, é bem inquieta, sonhadora, meio distraída, talvez bem decidida assim no melhor estilo pós-moderno. É Historiadora e atualmente mestranda da UERJ, em História e Crítica de Arte. Gosta de samba, de política, de física, de arte, também de história, bastante de poesia, também de ciência e de tudo um pouco que está ai pelo mundo. Pavor tem de hipocrisia, intolerância, ignorância, alienação, homofobia e afins. Enfim, metamorfose ambulante como qualquer ser (a)normal.

Seja o primeiro a comentar